«Cisne Negro»

 
Poucos serão os apreciadores de cinema alternativo que não se recordam de A Vida não é um Sonho e do seu brilhantismo estético, da sua intensidade capaz de prender e perturbar no melhor dos sentidos. Agora basta imaginar essas qualidades multipicadas por sabe-se lá quanto para saber o que esperar de Cisne Negro. Depois de The Wrestler ter descido um pouco a fasquia, pese embora a grande sensibilidade do argumento e o quase unânime aplauso da crítica, esta é, sem margem para dúvidas, a obra-prima de Darren Aronofsky até à data. Com tanto por contemplar, torna-se difícil decidir por onde começar e fica desde já o aviso de que estas linhas não farão justiça ao que se pode assistir no ecrã. Contudo, não podem ficar por escrever.
É certo que tudo neste filme é quase perfeito, mas o mais importante é que todo ele gira em torno disso mesmo: a busca da perfeição e os seus efeitos colaterais. A obsessão por esse fim, no contexto do mundo da dança, é o centro da narrativa e o seu fio condutor. Aronofsky faz esse retrato com soberba mestria e com uma visão cinematográfica espantosa, fundindo o bailado com a vida real, em todos os sentidos. Visualmente o filme é assombroso e recheado de pequenos detalhes, que desde cedo roubam a atenção, aumentando com o avançar da história e instalando a tensão que agarra o espectador e o mantém suspenso muito para além do momento em que abandona a sala. A banda sonora, com inspiração n’ O Lago dos Cisnes, compactua impecavelmente com as cenas e reforça sobejamente a sua intensidade.
Na metáfora ao balett Natalie Portman é brilhante a representar a dualidade do cisne branco e negro (Odette e Odile). Resta dizer que é o papel de uma carreira, que o seu óscar já está entregue e vai juntar-se aos restantes prémios que a actriz coleccionou, com inteira justiça, esta temporada. O restante elenco não destoa, mas não está ao mesmo nível, apesar do particularmente inspirado papel de mãe da protagonista, desempenhado por Barbara Hershey. No extremo oposto talvez tenhamos de colocar Mila Kunis, que embora se perceba que deu o seu melhor, talvez não tenha sido o melhor casting possível para este papel.
Um argumento brilhante assente na analogia com o bailado em questão, um retrato dos bastidores da dança que não sendo realista não andará longe, um olhar denso e credível sobre o desequilibro e fragilidade humanas num mar de competitividade e obsessão por transcendência, tudo magnificamente traduzido em imagens por Aronofsky que persegue, também ele, a perfeita representação do delírio e da demência.
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