«A Novela das 8»

A Novela das 8 é o último filme de Odilon Rocha e retrata a vida de muitos brasileiros que tentam (sobre)viver na presença de uma ditadura política. A estória data de 1978 e começa por nos apresentar a personagem Dora (Claudia Ohana) que é o núcleo central e ponto de ligação para as restantes personagens que gravitam à sua volta. Num momento inicial o filme cultiva através do guarda roupa e penteados discretos (cores neutras e o uniforme de empregada de casa) a submissa e apagada Dora, a sua patroa  Amanda (Vanessa Giácomo) contrasta pela exuberância da maquilhagem carregada perucas loiras e roupa provocatória. Todo esse trabalho de direcção de arte serve para destacar a dualidade coerente em todo o filme e particularmente reflectido nas personalidades de Dora com um carácter mais reservado, que muda o canal para ver notícias enquanto Amanda, com um comportamento fútil, fica descontente porque os seus clientes só a requisitam na hora da novela das 8. A novela em causa é Dancin’ Days (actualmente em exibição em Portugal, mas contemporaneo à estória do filme no Brasil) que retratava uma das discotecas mais conhecidas do Rio de Janeiro e que abordou pela primeira vez o tema da homossexualidade, deste modo Odilon Rocha faz uma notória homenagem ao director Gilberto Braga . Todo o filme é pautado pelo contraste entre o activismo político e o entretenimento da novela que entretém a população. As personagens vão navegando perante esta escolha eterna de lutar contra um sistema e ser interveniente tomando essa verdade como missão de vida, ou optando por viver de um modo mais carpe diem usufruindo dos prazeres quotidianos da vida. A boa prestação dos actores capta instantaneamente a nossa atenção apoiada num argumento que equilibra sublimemente a profundidade dos temas de intervenção e a corrupção, com a leveza do som disco, o sol e as praias e as paixões casuais. A Novela das 8 um filme a reter!

Para ver no cinema São Jorge integrado no festival Queer Lisboa às 17h.

O filme fez-me recordar esta música de Seu Jorge com letra de Leci Brandão:

“E na hora que a televisão brasileira
Destrói toda gente com a sua novela
É que o Zé bota a boca no mundo
Ele faz um discurso profundo
Ele quer ver o bem da favela”
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