«César Deve Morrer»

Complexo, verdadeiro e arrebatador. César Deve Morrer é uma inesperada surpresa no percurso mais recente dos irmãos Taviani. O filme não tinha recebido muita atenção até ter ganho o Urso de Ouro no Festival de Berlim. O seu mote, no mínimo refrescante, ditava que a peça de Shakespeare, Júlio César, seria representada numa prisão de alta segurança nos arredores de Roma (Rebibbia) pelos próprios reclusos. Não seria a primeira vez que esta prisão recebia este tipo de actividades, várias peças foram encenadas dentro das suas paredes, Fabio Cavalli director e encenador destas performances trabalhou com os Taviani na produção de Júlio César.

O filme começa com a última cena da peça e depois retrocede até ao início dos ensaios, fazendo uma transição da côr para o preto e branco. Umas das cenas mais poderosas é sem dúvida o casting, onde é pedido aos reclusos que digam informações pessoais como o nome, morada de residência, etc., primeiro de um modo emocionalmente afectado e depois em plena fúria, enquanto nas legendas passam os crimes e a duração da pena que cumprem. É neste momento que pela primeira vez se tem a noção que não estamos na presença de actores com uma vida confortável, mas sim de criminosos, traficantes e assassinos que estão presos há meses, anos, ou em prisão perpétua.

Na grande maioria do tempo assistimos aos ensaios da peça, à direcção de actores, a ensaios de falas dos actores e reclusos, e o posicionamento dos actores directamente para a câmara marca a ligação forte que o filme tem com a linguagem teatral. Mas ao mesmo tempo o retrato cru das vidas quotidianas daqueles reclusos, com cortes abruptos da narrativa central através de planos como os dos actores a serem silenciosamente encarcerados nas suas celas pequeninas, e com testemunhos reais como o de um recluso que afirma que “desde que conheci a arte, esta cela tornou-se a minha prisão”, dando assim uma dimensão extra que nos faz questionar sobre a importância social da arte e o seu poder de evasão, que transporta aqueles presos para outras realidades, lugares mentais bem longe daquela prisão. Também pelas transições entre côr/preto e branco, que separam as cenas da peça de teatro encenada no palco (uso da côr), das que são filmadas dentro da prisão durante os ensaios, se transmite a sensação de liberdade e de realização que estes indivíduos têm por breves momentos, ao saírem de si e tornarem-se outras pessoas.


As representações são despojadas de técnicas profissionais e académicas, livres para incorporar o texto à luz da sua própria história de vida e língua (usando dialectos do Sul de Itália), o que sem dúvida lhes confere uma verdade e intensidade muito especiais. Isto é patente quando um recluso expõe a sua fragilidade começando a emocionar-se com uma fala, que espelhava uma agressão que ele próprio tinha cometido. Neste filme a realidade mistura-se continuamente com a ficção de um modo, ainda que aleatório, muito bem articulado.
Apesar de César Deve Morrer ter apenas 76 minutos, a sua profundidade faz por merecer cada minuto.

Classificação (0-10): 8

César Deve Morrer | 2012 | 76 mins | Realização: Paolo Taviani, Vittorio Taviani | Argumento: Paolo Taviani, Vittorio Taviani, William Shakespeare | Elenco: Cosimo Rega, Salvatore Striano e Giovanni Arcuri

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