A justiça é cega «A Oeste de Memphis»

WestOfMemphis

Três crianças mortas, três adolescentes acusados. O número três é central neste filme de Amy Berg, que retrata a saga judicial que se seguiu aos crimes que tiveram lugar em 1993 A Oeste de Memphis, repartindo-se também ele em três partes: reconstrução do crime, processo judicial e desfecho final, 18 anos depois. Quem desconheça o caso é levado pela tensão dramática e pelo suspense com tanta ou mais intensidade do que se de uma obra de ficção se tratasse, embora os mais informados encontrem também aqui motivos de interesse em abundância.

Não foi a primeira vez na história que a necessidade de dar sentido aos acontecimentos, e no limite à vida, levou à construção de heróis ou vilões por meios que devem pouco à constatação dos factos. É precisamente isso que sucede após estes crimes e ao longo do processo de condenação inicial destes três jovens através de uma fórmula infalível: junta-se um estilo de vida alternativo no seio de uma comunidade conservadora a determinadas características que aparentemente estavam patentes nas provas e temos um conjuntos de homicídios tratados como “rituais satânicos”

O que emerge de essencial deste filme, ou mais propriamente do caso, são duas lições de certa forma paradoxais mas extremamente relevantes. Por um lado, a sensação positiva de que a perseverança do ser humano tudo pode quando concentrada colectivamente, tendo a vontade popular movido os meios que a justiça em si, por diversos motivos, não teve interesse ou capacidade para o fazer. Para este movimento social e cívico o contributo do cinema consistiu sobretudo na trilogia Paradise Lost, que foi servindo de combustível para a mobilização ao longo do processo, e agora neste brilhante A Oeste de Memphis, que pode ser considerado o derradeiro filme sobre a matéria.

Nesta obra é também captada a vigorosa mobilização de diversas figuras mediáticas para o caso, de que são exemplo Eddie Vedder, Henry Rollins, Johnny Depp ou Peter Jackson, que acabou por ser tornar também produtor do filme, para além de inúmeros especialistas judiciais e forenses que nada tinham que ver com o processo. O espantoso é perceber como não se tratava de uma simples acção solidária mas de uma militância e participação efectivas em diferentes momentos. No fundo, a convergência destes factores e acontecimentos levaram, pelo menos, à importante conquista do reconhecimento institucional da mobilização cívica, desde logo um feito incrível considerando o nível de burocratização deste tipo de sistemas judiciais.

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Por outro lado, não é segredo que a burocracia é poder e essa verdade é manifesta no decorrer deste processo. A lentidão na resolução do caso, os intermináveis obstáculos à apresentação de novas provas e a consequente dureza dos danos sobre os três acusados mostram simultaneamente que as sociedades ainda têm um longo caminho a percorrer no domínio da ética e que a justiça pode mesmo ser cega, no sentido mais literal possível.

Durante quase duas horas e meia de filme, que não se sentem passar e em que cada minuto justifica a razão de ser, A Oeste de Memphis reforça um tipo de documentarismo como intervenção social, com uma certa proximidade do jornalismo de investigação. Mas vai para além disso, descolando-se do rótulo de reportagem e afirmando-se claramente como obra cinematográfica, desde logo pela criatividade na articulação da informação documental com a filmagem original. A multiplicidade de técnicas usadas tornam o filme exaustivo do ponto de vista factual, com recurso à narrativa cronológica, a material noticioso, a entrevistas, a imagens da cena do crime, a autópsias e sessões no tribunal, conseguindo simultaneamente construir um forte apelo emocional através de documentação mais íntima, como cartas ou e-mails. Os planos mostram-se maioritariamente apertados, transmitindo uma posição de proximidade e olhar atento sobre os factos, ao passo que a componente sonora tem um papel central na acentuação das emoções experimentadas, de que é exemplo a apresentação de fotografias na sala de tribunal ao som de facas, quase como se as provas ferissem.

A sede de justiça mostrada pelo tribunal e pela polícia do estado do Arkansas, tão acesa após o crime, apresenta-se completamente esfumada e no presente a sua principal vontade é ironicamente “não mexer mais no caso”, mesmo perante evidências de um outro potencial culpado, deixando a amarga sensação de que a justiça sobre este caso jamais será reposta. Para além disso, sobra o estigma social dos três condenados que persiste muito para além do resultado de um julgamento, para além do impacto de quase duas décadas de encarceramento que dificilmente será alguma vez reparado.

Nota final para mencionar o filme Devil’s Knot, produção em curso inspirada neste caso e que conta com Reese Witherspoon, Dane DeHaan e Colin Firth no elenco. Haverá ficção que supere esta cruel realidade?

Classificação (0-10): 9
A Oeste de Memphis | 2012 | 147 mins | Realização: Amy Berg | Elenco: Jason Baldwin, Damien Wayne Echols e Jessie Misskelley
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