O papel principal d’«O Substituto»

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O Substituto é o último filme de Tony Kaye, realizador do drama neo-nazi América Proibida. Em ambos os filmes Kaye mete o dedo na ferida, e faz-nos acordar para estes pequenos mundos invisíveis para quem não tem de (sobre)viver neles. A componente quotidiana da história é introduzida em estilo cinema verité, com entrevistas reais a preto e branco a vários professores e usando a cor ao entrevistar Henry Barthe (Adrien Brody), que testemunha os desagrados e frustrações da profissão.

O filme foca uma escola pública no coração de Queens, Nova Iorque, para onde vão “os casos difíceis”. Adrien Brody tem uma performance fantástica como Henry Barthe, professor que tenta tapar os buracos nestas paredes em ruínas. Barthe é uma pessoa anestesiada e a viver em piloto automático, que luta com os seus próprios problemas pessoais (as memórias antigas surgem em forma de flashbacks, que Kaye filma com uma câmara de 35mm em tons sépia saturados, demarcando-se totalmente da trama central). A personagem é também descrita pela casa em que habita: branca, impessoal e vazia. Apesar disso, Barthe não é impermeável ao mundo que o rodeia, e continua a ter o poder de ver as pessoas, de as tocar e ser tocado.

O confronto entre professores e alunos é retratado pela primeira vez em The Blackboard Jungle, e desde aí o (mau) sistema educacional americano é uma temática recorrente no cinema. Os alunos desmotivados e claramente desinteressados em aprender chocam de frente com um professor que quer ensinar, que não os teme nem se deixa afectar. O Substituto realça que ambos os lados estão perdidos, algures nas definições das suas responsabilidades e deveres: vemos um professor que se agarra a uma vedação no meio da escola à espera que alguém o veja e uma aluna que se oferece ao professor porque ele foi o único que demonstrou interesse pelo seu talento; assistimos ao aluno que tenta intimidar o professor através da violência e o professor comparado a Hitler, ao discursar de um modo tirano e obtuso sobre os seus alunos. Todos os membros desta equação estão à espera de serem validados pelos seus pares, mas ninguém parece dar esse passo. Os planos desfocados e oblíquos surgem para agravar toda esta atmosfera de tensão e desligamento psicológico. A densidade de cada personagem é extraordinária, pessoas desacreditadas, sem esperança, cínicas pelo sentimento de derrota da sua própria vida, tentando continuar da melhor maneira que sabem. O realizador ilustra com pequenas animações num quadro de xisto alguns dos pensamentos das várias personagens. O Substituto é um filme denso e cheio de camadas, onde o oprimido se torna por vezes opressor, e os que não têm uma máscara e se permitem sentir e sonhar são os mais castigados.

Um filme de uma sensibilidade e inteligência extrema, para ser visto e sem dúvida debatido… Fica o sentimento que muito há ainda por fazer. Ainda que alguns tentem, a educação não é um bem que podemos ter o luxo de menosprezar.

Classificação (0-10): 9

O Substituto | 2012 | 97 mins | Realização: Tony Kaye | Argumento: Carl Lund | Elenco: Adrien Brody, Blythe Danner, Christina Hendricks, James Caan, Lucy Liu, Marcia Gay Harden e Sami Gayle

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