ENTREVISTA: Ian Padrón, na 3ª Mostra de Cinema da América Latina

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Nascido em Havana em 1976, Ian Padrón é um realizador cubano que embora jovem tem já um interessante percurso e um peso considerável na cinematografia do seu país. A propósito da sua vinda a Portugal para apresentar o seu mais recente Habanastation, conversámos com o realizador e ficámos a conhecer melhor as suas ideias de cinema, a realidade do seu país e o seu espírito independente perante a sétima arte.

Cinemaville: Está em Portugal pela primeira vez nesta Mostra de Cinema da América Latina. Qual o papel deste tipo de eventos na projecção dos seus filmes, particularmente em comparação com o circuito comercial?

Ian Padrón: A vida não é nada fácil para os filmes cubanos, sobretudo para chegarem ao circuito comercial. Temos de nos manter na rota dos festivais, essa é a melhor forma de promover os nossos filmes, porque existem diversos obstáculos à distribuição internacional. Apesar disso, Habanastation, a minha primeira longa-metragem de ficção, já esteve por exemplo em Los Angeles, no festival de cinema do Michael Moore, onde recebemos óptimas críticas não só do próprio mas também do Sean Penn, Oliver Stone, entre outros.
A nova geração de realizadores cubanos está de certa forma a criar uma cinematografia que, sendo marcadamente cubana, fala uma linguagem universal, compreendida globalmente. Todavia, para mudar o cenário da sua distribuição, um realizador cubano teria de desenvolver o seu trabalho noutro país e eu não pretendo fazê-lo.

criamos filmes para agradar ao público, não para enriquecer com o público

CV: E em Cuba, os filmes nacionais chegam com facilidade ao circuito comercial?

IP: Em Cuba a palavra “comercial” não é a mais apropriada. Um bilhete de cinema custa perto de 5 cêntimos, é muito barato. O Instituto de Cinema Cubano foi a primeira organização cultural criada após a revolução cubana de 1959, com o objectivo de mudar o panorama do cinema nacional, incentivando à produção de filmes que façam circular ideias, que levem as pessoas a pensar. Neste cenário, Habanastation pode ser considerado um blockbuster, com uma receita de bilheteira considerável, embora essa não seja de maneira alguma a motivação para fazer filmes. Até porque, quando o lucro é o objectivo inicial, acabas por fazer quase sempre o mesmo tipo de filmes, com vista a alcançar um público alargado. Essa é uma grande diferença que encontro entre o cinema cubano e o do resto do mundo: criamos filmes para agradar ao público, não para enriquecer com o público.

CV: Essa diferença é marcadamente cubana ou está de alguma forma implicada na cultura sul-americana em geral?

IP: Bom, Cuba é o único país socialista da região, somos diferentes do resto da América Latina, não tanto culturalmente mas sobretudo politicamente. Temos leis diferentes no que respeita à cultura. Para além disso, em Cuba fazemos um tipo de cinema diferente, com muito menos violência. Quando Habanastation representou Cuba na última edição dos Óscares, os membros da academia manifestaram o seu agrado por se tratar de um filme que aborda o espírito humano sem recorrer à violência e a imagens negativas e chocantes. Por vezes faz-se uma piada que diz que para um filme ser bem-sucedido tens de incluir uma violação – se for o irmão a violar a irmã, tanto melhor.

CV: Ainda assim, é importante para si que os seus filmes tenham uma componente social, de denúncia da realidade que melhor conhece?

IP: Quando realizadores estrangeiros retratam a realidade cubana acabam por cair no cliché, reproduzindo estereótipos. Por outro lado, chegam notícias a todo o mundo sobre Cuba que nem sempre correspondem à realidade, ao mesmo tempo que nós recebemos notícias que nos dizem essencialmente: o mundo é mau, Cuba é bom. Por isso, é importante que os realizadores cubanos tenham a oportunidade de mostrar eles próprios o seu país e neste caso os portugueses terão uma experiência “verdadeira” com a realidade cubana, sem filtros.

A censura existe sempre, em todos os países, porque o poder instituído tenta sempre condicionar o modo como o público recebe a tua mensagem

CV: Até Habanastation, tinha feito exclusivamente documentários. Esta passagem para a ficção fluiu naturalmente ou já estava de algum modo planeada? 

IP: Há uma tradição em Cuba segundo a qual os realizadores têm de passar primeiro pelas curtas-metragens, depois pelos documentários de maior escala e só então, eventualmente, terão o “privilégio” de fazer uma longa-metragem de ficção. Eu escrevi a ideia para este filme há dez anos, mas o produtor na altura disse-me que a ideia não era boa, que ficção para crianças não ia resultar em Cuba porque elas só vêem filmes de animação. Mas um outro amigo, Juan Carlos Cremata, realizou Viva Cuba, também ele um filme sobre crianças, e o seu sucesso abriu caminho a um novo movimento cinematográfico e a Habanasation, ao qual já se seguiram mais dois filmes na mesma linha. Ainda assim, é bastante difícil ser um realizador em Cuba, porque não há orçamento e não é possível realizar mais do que 3 a 5 produção nacionais por ano.

CV: Nesse capítulo, os prémios recebidos nos vários festivais são uma ajuda importante, ou não?

IP: Eu gostava de dizer que sim, mas nem por isso. Cuba deve ser o único país onde depois de fazeres um filme como Habanastation, aplaudido pela crítica e pelo público ao mesmo tempo, tens de esperar cerca de 3 anos para obter fundos para o próximo projecto. É como se começasses do zero: tens de bater às mesmas portas como se fosses um principiante, ainda que toda a gente saiba que tu tens capacidade para fazer um filme de qualidade e para comunicar com as pessoas através do cinema. Estamos numa fase de transição em Cuba, socialmente falando, e por isso as prioridades são mais políticas do que propriamente culturais.
Habanastation é o ponto que marca uma mudança na forma como as instituições cubanas vêem o meu trabalho, mas ainda assim há um certo desconforto face ao que eu faço, por ser um freelancer. Tenho as minhas ideias muito próprias e também por isso será sempre complicado para mim reunir apoios para fazer filmes. Mas, como disse, aceito essa realidade e quero continuar a fazer a filmes em Cuba e ser um bom cubano.

É um privilégio poder confrontar o poder através da arte

CV: A censura ainda existe em Cuba?

IP: A censura existe sempre, em todos os países e o problema não é tanto fazer o filme, mas sim mostrá-lo, porque o poder instituído tenta sempre condicionar o modo como o público recebe a tua mensagem. Em Cuba não existem cinemas privados, são todos estatais, por isso é um pouco como nas discotecas: selecciona-se quem entra e quem fica à porta. Eu acredito que, seja como for, deves fazer o filme que queres fazer e o resto não importa. Passei cinco anos a tentar mostrar um filme que foi censurado, o Dreaming in Blue, e estive sob muita pressão, mas foi a primeira vez em 50 anos que retiraram a censura a um filme. Foi muito importante para mim criar este documentário em torno do baseball, que foca as diferenças entre jogadores que vivem em Cuba e os que emigram. Quando um atleta deixa o país é de certa forma considerado um traidor e eu juntei neste filme jogadores nas duas situações, o que gerou um grande problema.
Creio que o público está sempre mais preparado do que as autoridades julgam e por isso tenta silenciar certas obras. Há pouco tempo realizei um videoclip para uma banda cubana em que surgia pela primeira vez a imagem de um beijo entre duas mulheres, e foi censurado. Antes desse, tinha mostrado uma mulher que utilizava uma bandeira de cuba como um vestido, e também foi censurado. Eu não estou interessado em gerar polémica, mas só temos uma vida e tens de criar aquilo que sentes que está certo. É um privilégio poder confrontar o poder através da arte, porque ficas com a sensação de que o teu trabalho vale a pena. Em Cuba ninguém enriquece a fazer cinema, por isso trabalhamos com as nossas ideias “por amor à arte”.

CV: Uma vez que o filme é dirigido sobretudo aos mais novos, qual é o papel do cinema na formação de crianças e jovens?

IP: Para mim, o principal objectivo de um filme é não ser aborrecido, é ser capaz de entreter. Se conseguires isto, captas a atenção do público, podes levá-lo a pensar e, quem sabe, a mudar algo. Habanastation, sendo a minha primeira ficção, foi para mim um processo de aprendizagem, uma tarefa de alquimista. Fazer um plano de um rosto, juntá-lo a outro e mais outro e depois misturar tudo e no final sair um filme parece magia! Foi a primeira vez na minha vida em que fiquei absolutamente satisfeito com o resultado do meu trabalho. Nos projectos anteriores estava sempre a procurar melhorar um pouco mais, sentia-me inconformado. Por outro lado, este filme mudou de alguma forma a maneira como as autoridades cubanas abordam a questão das desigualdades sociais em Cuba. Com o sucesso do filme, de repente deixou de ser um tabu e até os media passaram a sublinhar a necessidade de se abordar o problema. Eu fiquei tão honrado quanto surpreendido, porque se passaram mais de 45 anos sem se falar no assunto!

IanPadron_habanastation

CV: Habanastation é um filme que fala não só da desigualdade social mas também daquilo que uma criança necessita para ser feliz. Qual é a sua visão pessoal sobre esta questão e de que forma é que ela passou para o filme?

IP: A diferença entre classes sociais é o tema do filme, mas essa não é a principal ideia que eu queria transmitir. Penso que os miúdos actualmente passam demasiado tempo agarrados a telemóveis, tablets, consolas de jogos, à tecnologia de uma forma geral. Os pais corroboram com isto pois não querem que os seus filhos brinquem na rua, consideram perigoso, e desta forma os miúdos ficam isolados. Em Cuba não se vende este tipo de tecnologia nas lojas, as pessoas que a têm compram no estrangeiro, por isso as crianças cubanas acabam por ter oportunidade de passar mais tempo juntas, a brincar na rua. O que eu queria mostrar ao mundo com este filme é que isso é algo de bom que existe em Cuba. Como dizia uma frase que li numa parede em Madrid: “a verdadeira pátria de um homem é a sua infância”. É durante esse período que se constroem as bases daquilo que viremos a ser na idade adulta, ao mesmo tempo que a amizade e a partilha são essenciais para a felicidade. No fundo, o que é que te faz mais feliz: um amigo ou uma playstation?

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