«Habanastation»: como é ser jovem em Cuba

Habanastation

A primeira longa metragem de Ian Padrón, Habanastation, testemunha uma Cuba contemporânea, vibrante num contexto político em mudança. O filme fala do confronto entre dois mundos espelhados na experiência de vida de dois jovens, e o que parece à primeira vista uma abordagem da eterna luta de classes revela-se muito mais do que isso. Tudo acontece quando uma turma de crianças participa nas manifestações e festejos do 1º de Maio (onde a veneração a Che Guevara é ainda uma realidade) e um dos meninos se perde. O menino do bairro rico, Mayito (Ernesto Escalona), vai parar aos bairros pobres da cidade onde encontra Carlitos (Andy Fornanis) e aí começa a magia. As cenas em que Mayito se perde são acentuadas pelo uso de planos próximos que nos fazem sentir que seguimos o jovem na busca pelo seu grupo. O realizador conta que a cena em que Mayito entra no autocarro foi inicialmente uma prova de casting do actor Ernesto Escalona, mas que posteriormente decidiram incluí-la no filme. No casting o jovem teria de entrar num autocarro sozinho, em busca de alguém que claramente não está lá, e ao ver o jovem a ser “perseguido por câmaras” uma senhora levanta-se, agarra na mão do jovem e tenta protegê-lo. Ernesto sussurra “estou a ser filmado senhora” e ela muito maternal tenta proteger a criança do sensacionalismo da televisão e começa a maltratar a equipa, que no seu julgamento se está a aproveitar de uma situação de fragilidade do rapaz em vez de o ajudar.

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O confronto de diferentes realidades entre os jovens desperta todo um debate subjacente à história, do que realmente é ser uma criança na sociedade em que vivemos, de como se aliena os jovens em actividades individualistas como os jogos de playstation, trocadilho usado no nome do filme, e como os adultos assistem e motivam estes comportamentos, em substituição de amigos reais e de jogos de grupo. O filme mostra-nos esta dicotomia entre o conforto que a sociedade capitalista nos trouxe, mas que nem por isso nos une nem nos torna mais livres para sermos felizes. Exemplo disto é a obsessão que Mayito tem em andar agarrado à playstation, onde assistimos a um miúdo de cara fechada e contraído, em contraste com a sensação de libertação no plano zenital em que Mayito está a jogar à bola à chuva com outros jovens e toda a sua postura é radicalmente diferente. Padrón ressalta que esta atitude mais despreocupada das crianças ainda é uma realidade em Cuba, o que é um exemplo para outros países mais desenvolvidos em certos aspectos, mas que na forma como educa as suas crianças poderá estar a cometer um grande erro.

Os jovens actores estreiam-se aqui como protagonistas, tendo já experiência em trabalhos mais pequenos, e vêm de uma companhia de teatro infantil, que faz parte de uma organização La Colmenita, que desempenha um papel social e cultural muito importante. Ernesto e Andy têm das melhores performances do filme e a intensidade da sua representação é muito comovente.

O filme acaba com uma sensação de unidade e semelhança entre estes dois jovens, que no fundo espelha tudo o que nos torna humanos e iguais independentemente das nossas origens, status, ou orientações políticas: os nossos valores e os laços que criamos.

Classificação (0-10): 7

Habanastation | 2011 | 95 min | Realização: Ian Padrón | Argumento: Felipe Espinet | Elenco: Claudia Alvariño, Ernesto Escalona, Andy Fornanis, Rubén Araujo e Blanca Rosa Blanco

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