A bizarra fantasia de «Holy Motors»

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A beleza do acto está nos olhos de quem a vê.

Depois de ter competido em Cannes este ano, chega agora a Portugal a nova longa-metragem do pouco ortodoxo realizador francês Leos Carax, 13 anos depois de Pola X. Autêntico abanão na normalidade, Holy Motors começa em tom de alegoria, com o título a sobrepor uma plateia numa sala de cinema, colocando o enfâse no espectador. O próprio realizador surge em plano, em tom de auto-caricatura, à procura da porta secreta que lhe permita entrar no mundo do cinema. Daqui em diante a audiência será invisível, porém omnipresente através de “pequenas câmaras” imperceptíveis.

Surge então Monsieur Oscar, um homem que ao longo do dia encarna diversos papéis, sempre a partir de uma limusina que na prática é o seu camarim. É conduzido por uma mulher que coordena os seus diversos “encontros” e que é, ao mesmo tempo, a sua confidente. De idosa pedinte a criatura física e moralmente desregulada, de pai de família a músico bon vivant, de assassino a velho à beira da morte, esta multiplicidade de personagens (interpretados de forma brilhante por Denis Lavant) nunca permite conhecer o verdadeiro Monsieur Oscar.

HolyMotors02É a interpretação da vida, um puzzle de simulacros levados a cabo por actores camaleónicos que acabam por se ver despidos de identidade. Mas é também uma visita guiada a um mundo em decadência, progressivamente ultrapassado e dominado pela virtualidade – veja-se a campa com a insígnia “visite o meu site” ou o sonho pixelizado de Monsieur Oscar. O cenário é uma Paris muitíssimo bem filmada, tanto nos seus recantos mais banais como nos seus lugares icónicos, como Notre Dame ou Père Lachaise. Tudo isto através de um percurso episódico, visualmente deslumbrante, ao longo do qual se atravessam quase todos os géneros do cinema e nunca se consegue prever o que vem a seguir. Por vezes hilariante, outras chocante, o realizador desafia os limites do cinema e explora a vertente da arte pela beleza do acto, denunciando algum desencanto com a experiência cinemática contemporânea.

A cada momento Carax puxa-nos o tapete para lembrar que é a um filme que estamos a assistir, vincando quebras no sentido lógico da narrativa, conceptualmente impenetrável, enquanto revisita tudo que o cinema concebeu ou pode conceber, sendo várias as referências a outros filmes, sobretudo franceses. Ao mesmo tempo, parece homenagear e celebrar a versatilidade do cinema, bem como a entrega dos actores ao serviço da sua arte.

B093_C016_1004K7Este é um filme que, pela sua natureza, desperta a necessidade de explicações, de significados, e estes podem ser múltiplos: um exercício de imaginação e puro delírio; uma longa-metragem de inspiração kafkiana; uma afirmação perante a indústria do cinema; uma metáfora da vida louca dos actores; uma reflexão sobre a identidade e a condição do homem enquanto actor social. Mas é precisamente porque Carax deixa as possibilidades de interpretação intencionalmente abertas, suscitando a reflexão subjectiva, que parece interessante transcender a questão do sentido que faz procurar sentido neste estranho e maravilhoso filme. De resto, encontrar numa obra tão soberba e livre uma lógica quadrada não a tornaria de modo algum superior.

Classificação (0-10): 10

Holy Motors | 2012 | 115 mins | Realização: Leos Carax | Argumento:  Leos Carax | Elenco: Denis Lavant, Edith Scob, Eva Mendes e Kylie Minogue

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