«A Vida de Pi», uma vida ao quadrado

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Esta é a inacreditável história de Piscine Patel, mais conhecido por Pi, diminutivo que conquistou com esforço e talento matemático. Crer é, pois, o verbo chave deste A Vida de Pi, de Ang Lee, uma odisseia de 227 dias no mar precedida de meia hora de contexto da infância e adolescência idílica de Pi.

“A religião é uma casa com muitos quartos”, diz-nos o ecuménico Piscine Patel, que se afirma simultaneamente hindu, cristão e muçulmano desde muito jovem, e desafia os limites entre a religião e a razão, tanto inspirado por Dostoiévski ou Camus como pelas conversas com o seu pai. Vegetariano desde tenra idade, Pi cedo descobre a existência de alma nos animais e vai perceber com o tempo que tem com eles mais semelhanças que diferenças. Neste filme, Ang Lee mostra-nos toda a beleza da vida animal como poucas vezes a vimos, desde logo na sequência inicial em que cada fotograma parece saído de um livro infantil animado, porém faz questão de relembrar em diversos planos que esta magistral natureza se encontra em cativeiro, colocando o espectador “atrás das grades”.

Assim, entre a descoberta do amor, da religião e da razão, Pi vai desenhando a sua tábua, cada vez menos rasa, sobre a qual se apoiará mais tarde no acontecimento mais marcante da sua vida. Mas se esta é uma aventura profundamente espiritual, também o é cinematograficamente irrepreensível. O mundo inteiro parece pequeno perante a câmara de Lee, que invade o ar, a terra e a água, em planos ora macro ora micro, elevando a sua própria fasquia e dando um considerável salto tecnológico na sua carreira, inclusive ao nível do 3D.

Filmando as facetas mais extravagantes do mundo natural, Lee coloca no centro da acção a autêntica Arca de Pi que se constitui como consequência de um naufrágio e que, fazendo jus a Darwin, rapidamente vê reduzido o número de tripulantes. Daí em diante, as “interacções” de Pi (aqui interpretado pelo jovem Suraj Sharma, na sua primeira aparição no grande ecrã) dividem-se entre Deus e um tigre, de seu nome Richard Parker. O esbatimento das diferenças que separam Pi do animal, até ao ponto em que ambos se tornam a razão de sobrevivência e o meio de sustento do outro, revela-se uma parte fundamental do filme, sobre a qual se constrói grande parte da magia. Mais, o realizador consegue a façanha de manter viva a emoção mesmo sabendo o espectador que Pi sobreviverá, não fosse ele quem, já em idade adulta (Irrfan Khan), relata a sua própria história a um escritor em busca de inspiração e que corresponde, na vida real, a Yann Martel, autor do livro que inspirou o filme e com quem o mérito deve ser devidamente repartido.

Talvez se explique em demasia a intenção alegórica desta obra, polimento que parece dispensável e reflecte algum medo de “perder” a compreensão do público. De qualquer modo, sobram essencialmente elogios para esta fábula na qual se procura afirmar que a religião, e no limite toda a crença, mais não é que uma necessidade interior de pintar de cores e significados os desígnios da vida.

Classificação (0-10): 8

A Vida de Pi | 2012 | 127 mins | Realização: Ang Lee | Argumento: David Magee | Elenco: Suraj Sharma, Irrfan Khan e Adil Hussain

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