O Muel: a conversa com o vencedor de Sundance agora em Roterdão

O Muel, realizador do filme Jiseul, vencedor do prémio do júri na secção de cinema do mundo no festival Sundance (ao que parece foi uma decisão unânime tomada em menos de um minuto), chega a Roterdão em modo jet-lag mas com muita vontade de mostrar o seu filme e de responder a algumas perguntas.

OMuel

Jiseul é um filme sobre a sobrevivência dos habitantes da aldeia de Jejuque, que se esconderam numa gruta para escapar ao ataque militar que houve na Coreia por volta de 1948. N0 final da Segunda Guerra Mundial o Japão concedeu a independência à Coreia, mas logo depois, tal como na Europa a Alemanha ficou dividida em duas, por razões religiosas, na Ásia foi a Coreia que sofreu tal divisão, por motivos ideológicos. Potenciado pela Guerra fria, os comunistas começaram a ser perseguidos e é neste contexto que aldeia de Jeju é atacada por ordem americana através de forças armadas coreanas.

O que quer dizer o nome do filme?

Jiseul é um enigma até para muitos coreanos, o título está em dialecto Jeju (linguagem do filme) que significa batata. As batatas são a comida da alma, a comida da terra, naquela época significavam sobrevivência, ajudavam a prolongar a vida das pessoas, eu quis que esses valores e sensações estivessem presentes no filme.

Este filme é essencialmente um tributo aos que morreram, queria fazer um memorial às suas vidas.

Quais as reacções do governo ao filme?

Não tenho tido grande reacção, a que tenho é contra o filme. Há dez anos o presidente da altura pediu desculpas publicamente sobre o incidente e este começou a ser investigado, mas quando a administração mudou a investigação parou. O governo não apoia nem a investigação nem a divulgação, nas escolas ninguém fala deste assunto, este facto histórico não é ensinado aos jovens.

Há uma grande divergência na academia no que toca à responsabilidade dos Estados Unidos neste conflito. Não deveriam ser os militares coreanos culpados por esse ataque?

O propósito do filme não era apontar um culpado, apenas mostrar a ordem dos acontecimentos. Apesar de no início do filme vermos militares coreanos a abusar do poder que tinham, sabemos que a ordem do comando veio dos americanos, era este o contexto político da américa e dos países socialistas. Esta história é importante não só para a Coreia mas para o mundo global.

Este é o primeiro filme que aborda esta história?

Não, há sete anos atrás um amigo meu estava a realizar um filme sobre o mesmo assunto, mas morreu antes de o estrear. Com este filme eu também lhe presto uma homenagem e o subtítulo de Jiseul é a sequela desse filme: The time that passes without end II.

jiseul

Porquê a opção do preto e branco?

Eu venho da escola de pintura da Coreia,  gosto muito de usar tinta da china, com a tinta preta há imensos tons a explorar e eu queria explorar isso, pensava que se usasse as diferentes tonalidades da maneira certa, a sensação que eu queria causar chegaria ao público.

 A ilha onde filmamos tem cores muito bonitas e vibrantes, contrastantes com a tristeza da história em si, ao tirar a cor é como que se tirasse parte da alegria ao local, ficando mais em sintonia com o argumento.

Este acontecimento marcou profundamente a memória de um povo. As gerações passadas não falavam sequer do assunto, era um tabu. Ao acabar de realizar o filme, soube que uma tia minha tinha presenciado o ataque, mas nunca me tinha falado do assunto. Há muito medo e dor associado a este assunto.

Como é que o filme tem sido recebido pelas famílias sobreviventes?

O filme foi exibido poucas vezes até agora, mas a primeira exibição foi exactamente para os sobreviventes. Houve uma preocupação minha em evitar usar imagens demasiado cruéis, para não ferir a sua sensibilidade, e o curioso é que eles queriam ver algo mais forte e intenso, para que se percebesse o terror que tinham passado. As feridas estavam ainda muito abertas, estavam muito emocionados, mas o filme significou de alguma maneira um ponto final na sua história, dando-lhes alguma paz.

O maior desejo que as famílias e os próprios sobreviventes tinham era que muitas pessoas vissem este filme, já tive a oportunidade de o mostrar na Coreia, na América e agora aqui na Europa, por isso obrigado por virem vê-lo!

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