«Hitchcock»: mais que uma biografia, a história de um filme

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Este não é um filme vulgar, não por ser propriamente brilhante ou desprezível, mas porque há uma certa cinefilia implícita na realização de Hitchcock e, consequentemente, no livro de Stephen Rebello em que o filme se baseia, que se sente nos detalhes, desde logo no enquadramento da narrativa num formato que faz referência aos célebres episódios televisivos apresentados pelo “mestre do suspense”.

Após a consagração de Intriga Internacional, no auge da sua carreira até então, Alfred Hitchcock confronta-se com o drama da (recorrente) desinspiração, desta vez acompanhada pela pressão de uma longa carreira e dos flashes das máquinas fotográficas (leia-se atenção mediática) que disparam ao ritmo do seu batimento cardíaco e ambos ameaçam abrandar. Neste cenário, o filme conta a história da produção de Psico, em 1959, e de como o livro agarrou o realizador desde a primeira página, à semelhança de como o filme viria a tomar de assalto a atenção dos espectadores. Retrata-se um lado (mais) negro de Hitchcock e o seu humor mordaz, que empresta ao filme momentos absolutamente deliciosos e em abundância: “pior que uma visita ao dentista só uma visita da censura”.

Em Hitchcock percebemos como a cena mais célebre de Psico se construiu na mente do realizador, que decidiu inovar e arriscar tudo, derrubando barreiras da indústria de cinema norte-americana. Seguindo cegamente o seu instinto e a paixão pelo cinema, chocou a imprensa, a produtora e a própria Alma, a sua esposa (Helen Mirren), profundamente implicada na obra e carreira do realizador. Alfred Hitchcock confessou-se agradecido e inspirado pelos crimes de Ed Gein (serial killer famoso pela autoria de crimes horrendos na década de 1950) e Psico viria mesmo a tornar-se um projecto vicioso, ao ponto de penetrar os sonhos do realizador nos quais Gein surge como voz da consciência. Ao mesmo tempo que o mistério e o suspense invadem a sua vida pessoal, Hitchcock apaixona-se pela sua nova criação, cultivando um enorme secretismo em torno do enredo e do final do filme. A magnífica reconstrução da filmagem da icónica cena do chuveiro traduz a emoção que Hitchcock transportava para as suas obras.

Auxiliado consideravelmente pela cuidada caracterização, Anthony Hopkins presenteia-nos com um desempenho credível e sólido de um homem amargurado pela falta de reconhecimento oficial e que, imagine-se, gostava de ver desenhos animados ao som de música clássica enquanto comia cereais de pequeno almoço. Desta vez, os agudos e estridentes violinos assinalam o suspense no processo de edição, absolutamente decisivo na construção de Psico, através do qual Hitchcock se sentiria um verdadeiro maestro que, com o seu cinema, dirige as emoções da sua orquestra: o público.

Classificação (0-10): 7

Hitchcock | 2012 | 98 mins | Realização: Sasha Gervasi | Argumento: John J. McLaughlin | Elenco: Anthony Hopkins, Helen Mirren e Scarlett Johansson

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