«The Master – O Mentor» e o seguidor à deriva

TheMaster

O sexto filme de Paul Thomas Anderson desenrola-se em cenário pós-Segunda Guerra Mundial e segue um aposentado militar da marinha norte-americana após o acordo de paz com os japoneses. Trata-se de Freddie Quell, um homem em sofrimento que Joaquin Phoenix interpreta de forma magistral naquela que é, indubitavelmente, a melhor performance da sua carreira. Quell é um barco à deriva como resultado do tempo passado em guerra e no mar. Efectivamente, o mar é um elemento central do filme, que surge de forma recorrente e, como Freddie, sempre em estado turbulento. Para além da perturbação psicológica, a embriaguez crónica potencia o cocktail explosivo de medos e propensão para a violência que fervilha no interior de Freddie, quase tão abrasivo como as bebidas que o próprio prepara.

Ironicamente, é no mar que Freddie se reequilibra novamente, ou assim parece, mais concretamente a bordo do navio ao comando de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman, brilhante como é seu apanágio), mentor e guru narcisista de um culto denominado A Causa, que pretende ver adorado sem contestação. Dodd cedo se sente tentado a exorcizar os demónios interiores de Quell e ambos se atraem por razões pouco claras, alimentando-se mutuamente de remédios tóxicos e alienantes. Neste oceano de dependência, tanto da crença como do álcool, Freddie torna-se militante e fiel defensor d’A Causa. Em oposição, a aparição única e breve de John More (Christopher Evan Welch) serve para repor as distâncias face à razão e confrontar o culto com a racionalidade.

Pode ser estabelecida uma analogia entre o culto em torno d’A Causa e a Cientologia, embora o realizador opte por esbater essa associação e deixá-la ao critério do espectador. No entanto, é inegável a similaridade entre Lancaster Dodd e L. Ron Hubbard, fundador da Cientologia (precisamente na década de 1950) e também ele auto-proclamado escritor, filósofo, cientista, teólogo e marinheiro.

A hipnótica banda sonora de Jonny Greenwood está recheada de trechos com ritmos e melodias que se parecem sobrepor e contradizer, tão difusas quanto os pensamentos e estados de espírito da personagem encarnada por Phoenix. A combinação do som com a fotografia imaculada de Mihai Malaimare Jr. permitem a Anderson tornar bela uma narrativa por natureza pesada.

Filme impróprio para o público preguiçoso, no qual Paul Thomas Anderson questiona os limites e o eventual vazio por detrás da crença, recusando-se a raciocinar pelo espectador e construindo uma obra ambiciosa e enigmática, porém nem sempre esclarecida quanto ao que pretende comunicar (quiçá intencionalmente).

Classificação (0-10): 8

The Master – O Mentor | 2012 | 144 mins | Realização e Argumento: Paul Thomas Anderson | Elenco: Philip Seymour Hoffman, Joaquin Phoenix e Amy Adams.

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