«Bestas do Sul Selvagem»

Esta crítica não precisa de subtítulo. O filme, como o seu título, afirma-se por si mesmo, por isso vejam-no e ponto final.

Bestas do Sul Selvagem, de Benh Zeitlin | Diariamente | Nos cinemas

Agora que o repto está feito devo cumprir o meu objectivo com este artigo e escrever a minha opinião. Esta é a primeira longa-metragem de Benh Zeitlin e chega em 2013 ao circuito comercial em Portugal, quando no ano passado foi exibido em vários festivais internacionais, tendo arrecadado vários prémios incluindo o Grande Prémio para o Melhor Filme do Festival de Cinema Independente de Sundance.

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Bestas do Sul Selvagem retrata a vida quotidiana mas não rotineira da personagem principal, um novo tipo de heroína, uma força da natureza que reside no corpo de uma menina de seis anos que vive numa comunidade à margem do resto do mundo no delta do rio Mississípi, na chamada Banheira. Quvenzhané Wallis, que representa a magnífica Hushpuppy, começa por narrar a sua história na terceira pessoa dando-se a conhecer como uma menina que vive em condições bastante duras com o seu pai (Dwight Henry), o anti-herói da história que tenta fazer e ensinar o melhor para a sua “patroa”.

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Uma autêntica alquimia entre o conto mágico, patente no começo do filme com “once there was a Hushpuppy”, e o realismo da sobrevivência de uma quase orfã num contexto de desastre natural, entre a inocência da infância e a rudez dum espírito indomável e rebelde em estado bruto. Entre a alegoria pintada num pedaço de pele, ou num caixote de papel que a nossa heroína quer manifestamente deixar, para todos os que possam saber da sua existência, e a crítica social a um lado normativo vigente da população que tenta engolir maneiras alternativas de viver, por se julgar certa, a uma educação tão longe da que experimentamos aqui no ocidente. Este filme é uma experiência entusiasmante em todos os sentidos, algo que raramente acontece. As interpretações são muito boas, de notar que estamos a falar de actores não profissionais que cumprem muitíssimo bem os seus papéis, com especial foco em Quvenzhané Wallis que, sendo tão nova, demonstra já grande maturidade e coragem ao interpretar cenas que poderiam ser consideradas impróprias para crianças sequer verem.

A narrativa, por vezes abstracta, deixa ao espectador a tarefa de lhe dar o seu ponto de vista, não se preocupando em unir pontas que até ficam melhor soltas, como a analogia às bestas míticas que aparecem no filme e que podem significar, ou não, a materialização de uma característica psicológica das próprias personagens, seja a sua coragem ou o seu medo, ampliando-as desta maneira tão visual.

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Estas bestas reflectem também a atmosfera adversa em que vivem as personagens, onde é proibido chorar e quando se está magoado deita-se fogo à casa. Aqui aprende-se a dar murros na mesa, a fazer braço de ferro e a usar a violência como arma de sobrevivência, mas quando esta crosta superficial se quebra estes seres tornam-se emotivos, cativantes e inspiradores. A visão do mundo neste filme é pragmática, pouco ou nada antropocêntrica e faz-nos ser lúcidos colocando o ser humano como apenas mais um elemento deste milagre que é a vida no planeta Terra.

Classificação (0-10): 9

Bestas do Sul Selvagem | 2012 | 93 mins | Realização: Benh Zeitlin | Argumento: Benh Zeitlin e Lucy Alibar | Elenco: Quvenzhané Wallis, Dwight Henry e Levy Easterly

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