«00:30 A Hora Negra» e inconclusiva

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Um plano inicial a negro obriga a ouvir sons recolhidos durante os atentados de 11 de Setembro 2001 e a escutar os anónimos que viveram de perto estes acontecimentos. Com forte carga dramática, este arranque marca o tom do filme e deixa antever que se desenrolará a partir das visões plurais dos diversos personagens. 00:30 A Hora Negra é um filme tenso e musculado realizado por Kathryn Bigelow, num próximo do registo do seu anterior Estado de Guerra, porém com algumas diferenças. Aqui trata-se o período entre os ataques ocorridos no World Trade Center e no Pentágono e a morte de OBL (nome de código para Osama Bin Laden), com enfoque no processo de captura do líder terrorista. Mantendo o ângulo militar e operacional, este é um filme mais próximo do documentário de investigação, com uma estrutura vincada pela divisão da informação em capítulos.

Aliás, importa referir que esta é uma narrativa encerrada primeiro na realidade e só depois na ficção, já que a realizadora e os produtores foram eles próprios surpreendidos pela notícia da morte de OBL. Verdade ou ficção, o que o filme pretende transmitir, para além do amontoado de informação que se transforma (literalmente) em ruído a viajar por cabos, é o modo como ao longo deste processo os frágeis limites da humanidade estão constantemente à prova, como as vidas em jogo apresentam diferentes pesos e medidas consoante a perspectiva ou o abismo existente entre o discurso público do presidente (neste caso Barack Obama) e as actividades secretas da CIA.

Façam o vosso trabalho, tragam-me gente para matar.

Esta é uma linha a que é difícil ficar-se indiferente e que traduz na perfeição o desespero dos serviços secretos faça à ausência de desenvolvimentos conclusivos nas suas investigações que lhes permitam transmitir uma imagem pública de retaliação e, no seu entender, de reposição de justiça.

No centro da acção surge a figura de Maya, encarnada por Jessica Chastain, de longe a interpretação mais interessante do filme, uma personagem feminina talhada à imagem do estilo de cinema que Bigelow tem construído. Maya é uma máquina de guerra que opera a partir da secretária, alguém que desde o liceu e durante 12 anos trabalhou única e exclusivamente na captura de OBL. Chastain dá uma prova clara de que uma boa representação não tem de ser exuberante: aqui está sempre em tensão, contida, quase sem respirar até ao final do filme.

A realizadora presenteia-nos com uma montagem frenética, à velocidade a que circula a informação e surgem novos dados, com movimentos de câmara que acompanham quase sempre a emoção do filme e uma técnica exímia, especialmente ao nível do som, de que são exemplo as sequências de operações militares. E é precisamente no último terço que o filme nos impede de pestanejar, período em que o estilo de Bigelow mais se faz notar.

No essencial, esta é uma denuncia amoralista de uma realidade sobre a qual pairam todas as dúvidas e muito poucas certezas, ficando a cargo do espectador tirar as suas próprias conclusões.

Classificação (0-10): 8

00:30 A Hora Negra | 2012 | 157 mins | Realização: Kathryn Bigelow | Argumento: Mark Boal | Elenco: Jessica Chastain, Joel Edgerton e Chris Pratt.

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