ENTREVISTA: Jerónimo Rocha – MoteLx 2013

CARTAZ_MOTELx 2013

Antecipando a edição de 2013 do MoteLx, estivemos à conversa com Jerónimo Rocha, realizador da curta-metragem Dédalo, na qual se inspira este ano a imagem do festival. Multi-facetado e imaginativo, o realizador  falou-nos não apenas deste filme mas também do percurso que o levou até à Take It Easy, de alguns dos seus trabalhos mais reconhecidos e do futuro do cinema em Portugal.

Cinemaville: Comecemos pelo MoteLx e por Dédalo, curta-metragem que será o core da identidade gráfica do festival em 2013. Revela-nos tudo o que puderes sobre o filme.

Jerónimo Rocha: Dédalo foi uma espécie de granada que me explodiu nas mãos. Há sete anos que acompanho o festival por trabalhar na Take it Easy, agência que tem trabalhado na imagem do MoteLx, nomeadamente no desenvolvimento dos spots. Sempre estive envolvido nessa criação, ora na edição ora a fazer o storyboard, mas há três anos tive de substituir uma colega e acabar o spot do festival numa semana. Essa experiência fez-me perceber que gostava de realizar o spot novamente mas agora com um ano de antecedência e acabei por fazer o vídeo do monstro a andar por Lisboa. Gostei bastante do resultado mas senti falta de um lado mais físico, de construção de monstros de latex, de sangue, da fisicalidade da construção de modelos.

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Já queria fazer qualquer coisa relacionada com o terror no espaço e lembrei-me de brincar com a ideia do Alien, do Ridley Scott, começando por reunir as pessoas que eu considerava chave para fazer o Dédalo. A primeira foi uma colega de projecto da ACT que considerei a actriz perfeita para o papel que eu estava a imaginar: uma Ripley mais pequenina e frágil. Depois encontrei mais duas pessoas, que fizeram comigo a cena do Vietname da série Odisseia. Sabia também que o João Rapaz estava a querer investir em prostéticos e efeitos especiais e desafiei-o a fazer um monstro. Em conversa com o Bruno Caetano contava-lhe que ia começar com uma nave no espaço e que ia fazer o matte painting da nave, mas ele impingiu-me a ideia de fazer uma nave real, a Dédalo, que construiu durante um mês e meio. Contei ainda com o apoio do Frederico da Take It Easy para a direcção de arte, equipa e meios necessários para fazer algo maior do que eu imaginava. O spot de 30 segundos passou a curta-metragem, ampliando a ideia original para momentos passados e futuros da história. O pior é que no final já tinha uma longa… Então comecei a cortar de novo e fiquei com um segmento que funciona como promo do filme mas que de certo modo se fecha como curta. É um pequeno ciclo que começa e acaba, tem uma personalidade própria, mas dá a sensação de estarmos a ver o meio da história, como entrar numa sala de cinema e o filme já estar a dar. Hoje em dia nas séries de televisão podemos perder um episódio e conseguir entender o que se passa, estamos cada vez mais evoluídos na percepção de narrativas, conseguimos extrapolar muita coisa automaticamente e decidi brincar e tirar partido disso. A respeito da personagem feminina, tinha construído uma história que não implicava que a actriz tivesse muita informação sobre a personagem, mas insisti em criar todo um background, um diário desde que começa a sua viagem na nave até ao momento de início da curta. Ao construir esse pedaço de narrativa construí também a história no seu todo e a criei outro elemento que a compõe.

CV: Tens um apelo pessoal pelo cinema de terror? Acompanharias o MoteLx apenas como espectador?

JR: Sou suspeito porque tenho ajudado a fazer o festival através dos spots e tenho arranjado convites. Mas já via cinema de terror antes e alguns dos meus filmes preferidos são de terror, casos d’O Exorcista, do Alien do Ridley Scott ou The Shinning. O meu imaginário está repleto de filmes de terror e quando estou em Lisboa na altura do MoteLx passo os cinco dias do Festival a ver todos os filmes que posso, independentemente de serem bons ou por vezes maus, ou mesmo aqueles tão maus que se tornam bons. Mas se não estivesse na Take It Easy viria sempre ver filmes ao MoteLx.

LesPaysages

CV: Les Paysages teve um grande sucesso na internet a nível internacional, não só pela qualidade do trabalho mas provavelmente pela universalidade do conceito. Como surgiu a ideia das figuras miniatura em coexistência com pessoas e objectos de tamanho real?

JR: Como sempre tive essa linguagem de usar os meios ao meu alcance, foi fácil usar o que estava mesmo ali à mão no estúdio e no escritório da Take It Easy. A história do Les Paysages começou aqui mesmo no Cinema São Jorge, quando vim à Festa do Cinema Francês e, ao voltar para casa, encontrei uma pequena feira na Praça da Alegria onde estavam à venda os carrinhos que aparecem no filme. Pensei logo que tinha de os comprar e, enquanto fui levantar dinheiro, comecei a imaginar como seria a viagens daqueles carrinhos em que os canyons e as estradas seriam secretárias, cadeiras, pisa-papéis, esse tipo de coisas. O que achei engraçado foi que para os carrinhos um humano não seria um humano mas sim uma espécie de efeito atmosférico. Para um boneco que está a ser mexido por alguém a realidade temporal é diferente e os humanos são muito mais rápidos e praticamente invisíveis. Aproveitei ainda um conjunto de bonecos, carros e árvores em miniatura que existiam na Take It Easy de outro projecto, juntei-me com o Tiago e a Joana, membros da EasyLab, e durante cerca de uma semana estivemos a filmar.

Odisseia

CV: São evidentes as semelhanças de Les Paysages com o genérico da série Odisseia. Como é que se deu a passagem do conceito da curta-metragem para a série?

JR: Quando o Tiago Guedes estava a escrever o argumento com o Bruno Nogueira e o Gonçalo Waddington e viu o Les Paysages percebeu que havia elementos e momentos do filme que se assemelhavam à série. A própria lógica de estar na Take It Easy no escritório e ao mesmo tempo num universo imaginado de miniatura tinha muito a ver com o processo mental de meta-história da Odisseia, isto é, alguém está a imaginar o que está a escrever e a ver esse pensamento feito imagem já filmado. Era muito coerente a relação entre a curta e a série e o que o Tiago me disse foi “o conceito está lá, não mudes nada”. A única coisa que faltava era uma caravana e felizmente encontramos uma do mesmo modelo da que é usada na série.

CV: Voltando um pouco atrás, qual foi o teu percurso de formação e como chegaste até ao cinema?

JR: Começei por estudar na Soares dos Reis, onde fiz o curso de artes gráficas. Realizei um estágio numa empresa de artes gráficas a fazer fotolitos e depois segui para a Faculdade de Belas-Artes do Porto, onde acabei por fazer Pintura e desenvolver um trabalho que já tinha muito de vídeo e vídeo-instalação, portanto o cinema começou a entrar por aí, deu para perceber que havia ali um lado de cinema e de meta-narrativa que eu gostava. Não foi uma escolha óbvia, inicialmente queria seguir Design mas faltavam-me duas décimas para entrar, mas entretanto através de amigos e colegas percebi que também não era esse curso que queria. Um dos meus trabalhos finais foi uma curta-metragem, já estava claramente virado para o cinema e fiz erasmus nesse último ano em Madrid. Decidi lá voltar no ano seguinte para fazer um master (uma espécie de pós-graduação) de um ano que se centrava no desenvolvimento de projectos, nomeadamente ensinava a escrever um argumento, a apresentar um trabalho perante instituições como o ICA ou outra que o pretenda financiar, a fazer um pitch (em três minutos explicar o teu projecto). Este curso foi muito útil e deu-me uma preparação exclusiva do cinema que não encontrei em Portugal. Entretanto voltei a Portugal e comecei à procura de produtoras com a ideia ingénua de que haviam as mesmas oportunidades no Porto e em Lisboa para trabalhar em audiovisuais. Mal sabia eu que em Lisboa estava tudo: as empresas, as agências de publicidade, as produtoras, o equipamento, os técnicos… Não fazia ideia e comecei a ficar um pouco deprimido. Mas um colega de faculdade com quem eu tinha feito alguns projectos veio trabalhar para a Take It Easy, em Lisboa, mais especificamente para o EasyLab, um departamento mais criativo, onde faltava uma pessoa que tivesse prática de trabalho em montagem e composição em computador. Eu tinha essa experiência e o meu colega sugeriu-me e eu aproveitei a vaga. A 1 de Dezembro de 2005 estava de malas feitas para começar a trabalhar na Take It Easy, onde ainda estou actualmente.

jeronimo rocha

CV: Como é que se dá o teu “encontro” com a animação de volumes?

JR: Começei a trabalhar em stop-motion com o meu colega Nico Guedes. Ele tinha uma banda que eram os Big Fat Mamma e a primeira coisa digamos “profissional” que fiz foi um videoclip com um bonequinha de plasticina que se mexia, foi a primeira experiência com chroma key, com fantoches, com cenário feitos por nós. Com o Nico fui fazendo outros projectos desse género, sobretudo no EasyLab, cuja função é produzir conteúdos criativos dentro de uma produtora audiovisual que trabalha com agências de publicidade (Take It Easy) onde os trabalhos são mais directos e enquadrados. O EasyLab ganhou notoriedade, transformou-se numa espécie de realizador colectivo e começou até a fazer alguma publicidade em stop-motion para agências, algo que inicialmente não almejávamos. De repente começámos a ter muitos trabalhos, como o Pillow Man do Tiago Guedes, em que fizemos a cenografia e uma animação que aparece a meio da peça, ou um videoclip para os Da Weasel também em stop-motion, uma animação com os próprios membros da banda. Foram anos muitos produtivos que para mim foram uma escola.

CV: O stop-motion é a tua especialidade e a tua maior paixão ou simplesmente tem surgido naturalmente a possibilidade de trabalhares em projectos dessa natureza?

JR: Diria que não é uma especialidade e que a minha paixão é fazer um produto interessante para mim, algo que gostasse de ver. Se o stop-motion for o caminho então eu sigo-o. No entanto o stop-motion, bem como outro tipo de animações, tem uma característica que me agrada bastante: permite fazer produtos com muita qualidade sem exigir muitos meios. Claro que se for uma longa-metragem, como as da Laika, isso requer mais meios para construir diversas personagens, cenários, etc. Mas usando como ferramenta e como arma os meios à disposição consegues fazer trabalhos muitos interessantes e criativos. Considero o stop-motion mais um meio para um fim e gosto dele por essa facilidade.

CV: Quem consideras como “mestres” do stop-motion e que filmes recomendarias?

JR: Uma das figuras mais relevantes para mim foi o Ray Harryhausen, que faz parte do meu imaginário infantil. Recordo particularmente o Choque de Titãs, que tinha uma medusa, um kraken gigante que surgia das águas e um pegasus, e muito daquilo é feito em stop-motion. Outro exemplo é o Guerra das Estrelas, em que me lembro de achar piada a tabuleiro de xadrez com uns monstrinhos feito em stop-motion. Fui tendo contacto com o stop-motion de forma integrada no cinema, principalmente na ficção científica, na mitologia e em filmes de fantasia. Na actualidade os estúdios da Laika e as produções do Tim Burton são as principais referências no universo do stop-motion de animação.

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CV: Existem condições em Portugal para realizar uma longa-metragem em stop-motion ou no estilo de Dédalo que chegue ao circuito comercial?

JR: Tenho toda a vontade de fazer uma longa e acho que há disponibilidade da Take It Easy para me ajudar a tornar isso realidade. Se será possível neste contexto em que vivemos agora de facto há muitas dúvidas, mas acho que temos tantas plataformas diferentes a que nos podemos agarrar, e não me refiro só ao crowd funding que está muito na moda, mas também via outros materiais como graphic novels, o próprio texto ou livros, elementos que não sendo o mesmo media estão a acrescentar à história, a um universo expandido. Mas pressinto que de uma maneira ou de outra vou vingar a história da Dédalo.

CV: A partir da tua experiência consideras que o cinema em Portugal pode e deve ser proactivo e desenvolver-se independentemente dos apoios estatais ou o papel do Estado no financiamento é indispensável?

JR: Os apoios estatais mexem muito com factores políticos e neste momento a política está muito descredibilizada, são comuns chavões como “são sempre os mesmos a receber os apoios” ou “investiram o nosso dinheiro neste filme que ninguém vai ver”. Mas acho que um fundo de investimento público em cinema é fundamental. Por outro lado, acho que é um erro pensar que o futuro do cinema passa por uma indústria em Portugal por um motivo muito simples: não temos pessoas suficientes a ver cinema que compense monetariamente. Nunca vamos conseguir fazer um investimento como os americanos ou até como os espanhóis. Um filme mal conseguido nos EUA tem milhares de pessoas a vê-lo. Em Portugal há muito menos espectadores e uma população envelhecida que terá certamente outro tipo de preferências. Pensar que temos de investir dinheiro em filmes catástrofe como os do Roland Emmerich é um erro, e estes filmes que eu estou a fazer podem nem ser de um género que agrade à maioria do publico, é muito de nicho, o que nos EUA funciona porque esse nicho são milhares de pessoas. Pode é haver algum plano de negócios, investimento estrangeiro ou alguma maneira de exportar filmes que justifique monetariamente e compense fazer produtos como este. O que é preciso é mudar o paradigma e tentar perceber como é que podemos sobreviver e fazer dinheiro para ir ao supermercado inventando com estes novos materiais e ferramentas que temos, construindo produtos e um imaginário interessante que transforme também parte da cultura do país. Com tanta descredibilização da parte da política, que continua a ter face à cultura uma atitude do estilo “estes tipos querem é apoios e depois não fazem nada”, esquece-se que a longo prazo um país que investe na cultura pode ter retorno financeiro atraindo pessoas e tornando-se até uma influência. Ao criar um vazio na nossa cultura estamos a proporcionar que a cultura dos outros nos influencie. O meu filme, por exemplo, vai beber à cultura americana porque não há referências deste género em Portugal, vamos buscar semelhanças onde existem exemplos de trabalhos de que gostamos.

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