«Só Deus Perdoa» num inferno de vingança

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Depois de Drive, muita gente estaria à espera que Só Deus Perdoa fosse pouco mais que uma versão do anterior filme de Nicolas Winding Refn desta feita passado em Banguecoque. Pois, não, nada disso. Se imaginarmos o percurso de um filme ao outro, poderia ser descrito como uma viagem do céu ao inferno, de um mundo de sonho a um mar de pesadelo a que parece impossível escapar.

Ryan Gosling volta a colaborar com Refn como protagonista encarnando Julian, um britânico exilado na capital tailandesa e que, juntamente com o seu irmão, mantém uma espécie de “clube de combate” que encobre um negócio de tráfico de droga. Mas quem tiver em Gosling o principal motivo para ver Só Deus Perdoa talvez esteja prestes a assistir ao filme errado. Após o assassinado do seu irmão, Julian é pressionado pela sua mãe (Kristin Scott Thomas) a ajustar contas com os responsáveis, o que o obrigará a mergulhar no submundo do crime e fará correr bastante sangue.

Diz o ditado que “a vingança serve-se fria” e Refn serve-a também muito lentamente. O que não é mau, note-se. O ritmo lento, a atmosfera cromática em obscuros tons de vermelho e azul e a banda sonora de Cliff Martinez – que se torna mesmo numa personagem de uma história contada com muito pouco texto –  acentuam a tensão constante. Da expressão facial aos movimentos corporais, tudo é lento e suave, embora mude drasticamente com autênticos choques acção e ultra-violência. Tratam-se na maior parte dos casos de rituais de justiça pelas mãos de um detective reformado que encarna a missão de justiceiro de causas perdidas, uma espécie de herói amoral, um anjo da morte. Mãos essas que são um elemento fundamental do filme, quase a sua razão de existir, algo que Refn faz questão de vincar em focos recorrentes, ora de punhos cerrados, simbolizando a firmeza e a virilidade, ora de mãos abertas, representando a submissão e a vulnerabilidade.

Este ex-polícia, Chang, é no entanto o alvo de Julian, já que também esteve envolvido na morte do seu irmão. Este Julian que Ryan Gosling encarna é um homem em pleno purgatório interior, um pacificador em processo de vingança, porém irritantemente catatónico e praticamente monossilábico, absorvendo energia para a acção da sua mãe, Crystal, figura que emana poder e sede de vingança, uma matriarca suja e vilipendiosa apesar do seu ar de femme fatale de tempos idos.

Com um orçamento reduzido, Nicolas Winding Refn ergueu um filme semelhante a uma instalação: não há bom nem mau, certo ou errado, e o que prevalece é a experiência artística. Pretensioso ou vanguardista? A verdade é que o realizador dinamarquês foi capaz de criar uma obra original, com um estilo próprio que desafia convenções, cria momentos icónicos e se revela intrinsecamente cinemática. Só Deus Perdoa pode não ter tudo o que é preciso para se tornar numa obra-prima, mas certamente merece ser visto e a carreira do realizador acompanhada atentamente.

Classificação (0-10): 7

Só Deus Perdoa | 2013 | 90 mins | Realização e argumento: Nicholas Winding Refn | Elenco:  Ryan Gosling, Kristin Scott Thomas e Vithaya Pansringarm

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