«Apenas o Vento»: O destino de uma família Roma

Apenas o Vento

Apenas o Vento

Honesto, realista e denunciador, Apenas o Vento, é o mais recente filme do realizador Benedek Fliegauf, Clone (2010). A estrutura do filme espelha o passado documentalista do realizador, começando com um prólogo que contextualiza a situação extrema em que a comunidade Roma viveu (e que em muitos aspectos continua a viver) na Hungria nos anos de 2008 e 2009, quando houve uma série de assassinatos a várias famílias, por motivos racistas, e depois seguindo 24 horas na vida quotidiana de uma família desta comunidade. Aspectos técnicos como o uso a luz natural e uma banda sonora muito naturalista, onde ouvimos o som da realidade (os pássaros, os som do vento nas árvores, os passos em terra batida, ou o barulho do corta mato) corroboram essa linguagem próxima do documentário.

Mas apesar destes elementos, o realizador não se limita a dar um vislumbre do que é ser um Roma numa sociedade preconceituosa e não inclusiva. O filme tem uma dimensão mais abrangente, que questiona o porquê do racismo, do que se alimenta e os artifícios que as pessoas têm para o legitimar. A personagem do investigador, que come pistácios numa cena de crime, representa isso mesmo, ao dizer que os assassinos estavam a cometer crimes estúpidos por não escolherem as famílias baseados num critério de boa “conduta moral”. De outro modo o racismo é também abordado do lado das vítimas, de quem o sente na pele e como sobrevive a essa agressão permanente.

As personagens principais são retratadas numa narrativa paralela, mostrando como os quatro elementos da família lidam com a ameaça que paira no ar, e com o plano possível de emigrar para o Canadá onde o pai já se encontra. Birdy (Katalin Toldi) – a mãe, vive afogada em múltiplos trabalhos para conseguir garantir o mínimo de qualidade de vida à sua família, sem tempo e disponibilidade para pensar no perigo. A sua atenção está simplesmente focada no dia em que se poderá juntar ao marido. Com uma caracterização rude e sempre suada é desse esforço que alimenta a família.

Anna (Gyöngyi Lendvai), a filha mais velha, é a cuidadora, quem olha pelo irmão, o tenta levar a escola, quem traz os remédios à vizinha que tem problemas mentais, e dá banho à sua filha. Uma personagem com uma maior autoestima que cuida da sua higiene e aparência. Anna representa uma nova geração que tem acesso à educação e poderá ter uma vida diferente. Anna não ambiciona ir ter com o pai, teme ser demasiado tarde, e numa conversa com ele pede-lhe que venha protegê-los. O irmão mais novo Rió (Lajos Sárkány) representa uma terceira abordagem a essa ameaça, não está á espera de uma promessa, nem mostra a necessidade de ser salvo. Apesar de ser o elemento mais novo, a sua atitude de ataque contrasta com o lado mais passivo das mulheres. Ele não entra no sistema, não vai a escola, passa o dia ora a divertir-se ora a preparar uma escapatória no caso de serem atacados. A seu cargo, têm ainda o pai de Birdy, que é um corpo a definhar, o único que representa um estereótipo de inutilidade e decadência.

apenas o vento

O realizador trabalha a discriminação destas pessoas através do espaço, a família vive isolada no meio de uma floresta, longe da “civilização” que os menospreza, que os inferioriza, e que tira partido do seu trabalho honesto e se livram dele como o vento que afasta um mau cheiro. É na interacção das mulheres da família com a escola ou com as entidades empregadoras que vemos esse ataque constante e directo. Seja por serem de uma etnia diferente, como por serem mulheres, a única opção que elas têm é fingir que não veem, que não ouvem…numa postura de passividade e abnegação. Isso é patente tanto na expressividade corporal e na representação das actrizes femininas, como nos planos que acompanham as caminhadas das personagens, que mostram planos de costas ou de perfil.

Apenas o vento foi apresentado no Festival de Berlim em 2012, onde venceu o Grande Prémio do Júri e o Prémio Amnistia Internacional, está agora em exclusivo no cinema King. Um retrato tocante e intemporal que reflecte uma verdade daqueles que não são ouvidos. Que não seja apenas o vento a testemunhar acontecimentos que morrem impunes numa moral podre de uma Europa com complexos de superioridade.

Classificação (0-10): 7

Apenas o Vento | 2012 | 95 mins | Realização: Benedek Fliegauf | Argumento: Benedek Fliegauf | Elenco principal:  Katalin Toldi, Gyöngyi Lendvai, Lajos Sárkány

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