ENTREVISTA: Nuno Sá Pessoa – MOTELx 2013

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Elaborámos uma série de entrevistas que antecipam o arranque da edição de 2013 do MOTELx. O objectivo é conhecer melhor e comparar as visões e opiniões de um conjunto de realizadores portugueses cujos filmes integram a selecção oficial em competição pelo Prémio Yorn MOTELx 2013, que visa distinguir a Melhor Curta de Terror Portuguesa. Desta vez apresentamos a entrevista com Nuno Sá Pessoa, que partilhou a sua trajectória em direcção à sétima arte, o conceito por detrás do seu filme Bílis Negra e a sua apetência pelo cinema de terror.

Cinemaville: Revela-nos sucintamente o teu percurso de formação e a forma como foste ao encontro do cinema. A oferta de ensino em Portugal foi suficiente de acordo com as tuas necessidades e expectativas ou tiveste de recorrer ao estrangeiro?

Nuno Sá Pessoa: Desde sempre tive uma necessidade de expressar aquilo que sentia através de alguma vertente artística, além disso sempre tive uma paixão por cinema, juntou-se a fome à vontade de comer e decidi enveredar pelos estudos da sétima arte, aquela que é, na minha opinião, a arte das artes, já que reúne todas as outras em uma só, não é um ofício solitário como outros, o trabalho de equipa é fulcral, e é essa união entre vários artistas como músicos, fotógrafos, actores ou escritores que torna o cinema tão especial.

Quanto ao ensino em Portugal, infelizmente fiquei bastante desiludido com a minha experiência pessoal, estudei durante cerca de seis meses numa universidade de Lisboa e as razões que me levaram a abandonar o curso foram essencialmente os métodos de ensino bastante inorgânicos e a forma de estar dos professores. De Lisboa saí para o The European Film College da Dinamarca onde me formei para depois regressar ao nosso país.

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CV: Quais as tuas principais referências na Sétima Arte?

NSP: As minhas referências são muitas, mas nomeando aqueles que para mim se destacam de entre os outros, diria Stanley Kubrick, Sergio Leone, Roman Polanski e Alfred Hitchcock.

CV: Bílis Negra aparenta uma carga enigmática e psicológica forte. Como foi conceber e realizar um filme com estas características e o que podemos esperar dele?

NSP: O conceito é do Uarlen Becker, dramaturgo brasileiro da Bahia que escreveu o texto originalmente para teatro, a adaptação foi levada a cabo pelo João Craveiro que é também o protagonista do filme, e somente os ajustes finais foram meus! A ideia de realizar este filme foi-me proposta pelo João durante uma das reuniões mensais do Polvo no Musicbox, realizá-la foi fantástico, a equipa que colaborou comigo é excepcional e trabalhar com o João Craveiro, o Paulo Duarte Ribeiro e o Tobias Monteiro foi um prazer, os três fundaram a companhia teatral Kind of Black Box há oito anos e trabalham juntos desde então, este facto tornou tudo muito mais prazeroso e facilitou em muito o meu trabalho de criar um entrosamento entre os actores que há muito existe.

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CV: Tens alguma afinidade particular pelo cinema de terror? Acompanharias o MOTELx como espectador?

NSP: Acima de tudo sou um fã de filmes que me prendem do princípio ao fim, nunca tinha pensado muito sobre quais eram os meus géneros preferidos, mas o facto de estar em competição no MOTELx pelo segundo ano consecutivo fez com que eu me apercebe-se que o género de terror é sem dúvida um dos meus prediletos, basta ver que de entre os meus filmes de eleição podem-se contar, por exemplo, The Shining, Rosemary’s Baby, The Wicker Man, Suspiria ou Psycho! Quanto a ser espectador do MOTELx também tenho a certeza que o seria, penso que este é um dos festivais de cinema mais bem organizados, é um trabalho excepcional a todos os níveis, não é por acaso que a cada ano que passa tem mais espectadores.

CV: Consideras que o cinema em Portugal deve desenvolver-se independentemente dos apoios estatais ou o papel do Estado no financiamento é absolutamente indispensável? Que futuro vislumbras para o cinema “made in portugal”?

NSP: No geral, o financiamento para a cultura levado a cabo pelo estado português é absolutamente dispensável… A maioria dos projectos que recebe os apoios não produz qualquer tipo de receitas e tem níveis de audiência baixíssimos, isto para além de, na sua maioria, seguirem uma linha estética datada, pouco criativa e sem dinâmica.

O problema do cinema financiado pelo estado é que quem atribui esses prémios são júris que muitas vezes estão acomodados ao posto e que favorecem, em geral, o mesmo grupo de pessoas, pessoas essas que ignoram por completo a opinião do público e os lucros que o filme pode trazer às finanças do estado.

O melhor exemplo de que o cinema independente do estado funciona é Hollywood, acho que o estado deve criar e facilitar condições de investimento por parte de produtores privados e impor regras a nível de distribuição. Se eu investir o meu dinheiro num filme, terei a preocupação de que o filme me dê um retorno monetário, isto, ao contrário do que muitos dos artistas contemplados com financiamentos públicos alegam, não compromete, de todo, a qualidade artística e intelectual de um filme, para seu temor, compromete sim, a capacidade profissional do artista. Cineastas como os que eu referi (Kubrick, Leone, Polanski, Hitchcock), conseguiram lograr aquele que é, na minha opinião, o grande desafio de um artista, conseguir transmitir os seus pensamentos, sentimentos e emoções de uma maneira que é compreensível, acessível e apelativa para qualquer tipo de pessoa, desde a mais intelectual até à mais simples, esse sim é o grande desafio que, se alcançado, encherá medidas tanto a nível económico como artístico.

Para finalizar, olhando para a cena do cinema independente em Portugal, apenas posso prever que o futuro será brilhante, porque o presente, sem ajudas, já o é!

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