ENTREVISTA: Rui Pilão – MOTELx 2013

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Iniciamos uma série de entrevistas que antecipam o arranque da edição de 2013 do MOTELx. Vamos conhecer melhor e comparar as visões e opiniões de um conjunto de realizadores portugueses cujos filmes integram a selecção oficial em competição pelo Prémio Yorn MOTELx 2013, que visa distinguir a Melhor Curta de Terror Portuguesa. Com o festival quase quase a começar damos a palavra a Rui Pilão que, entre outros temas, nos fala do seu processo de aprendizagem como realizador, da sua forma de cativar o público e da realidade do cinema nacional.

Cinemaville: Revela-nos sucintamente o teu percurso de formação e a forma como foste ao encontro do cinema. A oferta de ensino em Portugal foi suficiente de acordo com as tuas necessidades e expectativas ou tiveste de recorrer ao estrangeiro?

Rui Pilão: Licenciei-me em BSc(Hons) Sound Technology na University of Glamorgan em Cardiff, País de Gales. Quando regressei a Portugal a realização chamou por mim e comecei a ler manuais para me preparar para o primeiro projeto que acabou por ser a minha escola de cinema. Depois disso frequentei o curso de Realização na ETIC. Neste momento vou para o segundo ano do Mestrado em Comunicação Audiovisual, Especialização em Realização e Produção, na ESMAE, no Porto.

A quantidade de oferta no ensino superior em Portugal nunca foi a razão pela qual decidi estudar no estrangeiro. O que me levou a sair do país foi a experiência que isso me daria a nível cultural, de vivência, e claro, em termos linguísticos, já a pensar no futuro. Conheci pessoas de todo o mundo e isso só por si já é uma grande riqueza, especialmente para alguém que pretende transmitir as suas ideias numa linguagem universal como é o cinema. Ou assim o deveria ser. A maior diferença no Reino Unido são as mentalidades. Em Portugal, muitos licenciados gostam de ser tratados por Doutores, lá, um Doutorado, pede-me para o tratar pelo primeiro nome. Isto parece algo básico mas faz toda a diferença, revela uma coisa que nos faz falta, humildade. Saliento também que lá, o importante é o aluno, não o professor. Quando eu apresentava uma ideia, davam-me todas as oportunidades para a por em pratica, não a adulteravam, como aqui fazem. Por isso é que, em muitas das curtas-metragens académicas, é possível identificar de que escola saíram. Estamos a criar realizadores formatados segundo o que alguns professores consideram ser o “bom” cinema.

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CV: Quais as tuas principais referências na Sétima Arte?

RP: Uma influência sempre presente desde a minha infância é o Sergio Leone. Alguns realizadores ainda no ativo que admiro são o Christopher Nolan, James Cameron, Steven Spielberg e Quentin Tarantino. Por diversas razões foram eles que me fizeram apaixonar pelo cinema. Tenho a certeza que me influenciam criativamente, mesmo que a nível subconsciente.

CV: Desespero aborda uma manifestação de terror bem real e muito pouco fantasiada. Como surgiu a ideia de fazer um filme com uma certa consciência social e como descreverias o seu processo de realização?

RP: Desde a primeira curta-metragem que realizei, “Aqui jaz a minha casa”, senti uma necessidade de partilhar temas que me afetam, que me revoltam. A minha forma de transmitir e procurar sensibilizar o público para um tema é precisamente retrata-lo da forma que ele é, real, cru, frio. Com uma dose de sarcasmo e crueldade. Mas sempre de forma sóbria e simples. As ideias surgem naturalmente, tendo em consideração as limitações de meios, tempo e orçamento praticamente inexistente. Procuro fazer o melhor que consigo, dadas essas limitações, não descuidando a história, que é o mais importante. Uma grande preocupação que eu tenho é procurar cativar o público, mantendo-o interessado. Provocar reações, positivas ou negativas, o importante é fazê-los reagir, sentir algo.

CV: Tens alguma afinidade particular pelo cinema de terror? Acompanharias o MOTELx como espectador?

RP: Sim, o cinema de terror influenciou muito a escolha de me tornar realizador. Sou fanático pelos clássicos de terror americano, especialmente nas décadas de 70 e 80. Nunca fui ao Motelx, nem como espectador, este vai ser o primeiro ano. Mas espero compensar isso, estou a planear fazer uma maratona de filmes no decorrer dos 5 dias.

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CV: Consideras que o cinema em Portugal deve desenvolver-se independentemente dos apoios estatais ou o papel do Estado no financiamento é absolutamente indispensável? Que futuro vislumbras para o cinema “made in Portugal”?

RP: Este é um daqueles temas que daria, no mínimo, para escrever uma tese. Ou talvez a solução seja mais simples do que parece. No entanto não me cabe a mim mudar as mentalidades do nosso país. A única coisa que eu posso fazer é tentar trabalhar o melhor que consigo, de forma empenhada e pelos motivos certos. Considero que devem existir apoios, mas estes devem ser repartidos, também, para aqueles que ainda não têm currículo. É um pouco complicado pedirem o CV, e a decisão pesar sobre isso, quando sem apoios não consegues fazer filmes de maior qualidade e por sua vez não consegues ter experiência sólida. Percebem o meu dilema? De resto, temos que ter em conta a dimensão do nosso país, tornando-se, por causa disso, complicado ter retorno no investimento feito. Devido a isso, não considero viável que o cinema português consiga subsistir por conta própria, precisará sempre dos subsídios. A não ser que consigamos chegar ao mercado internacional de uma forma mais direta e apelativa. Engraçada essa expressão, “made in Portugal” porque une a influência anglo-saxónica que tanto precisamos, com a nossa cultura. Para fazermos cinema dito comercial não precisamos “vender a alma”, muito menos as nossas convicções, basta sermos profissionais. Acho que o maior defeito de vários cineastas Portugueses, é o julgarem-se intelectualmente superiores. O cinema é para o público. E eles não deveriam precisar de um manual para entender um filme. Cabe ao realizador cativa-lo, e não precisa de ser de forma fácil, a verdadeira qualidade é sempre compreendida e valorizada. Se num país democrático acreditamos no poder do voto, porque razão não acreditamos no poder do bilhete comprado?

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2 responses to “ENTREVISTA: Rui Pilão – MOTELx 2013

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