«Blue Jasmine» e a síndrome do estatuto social

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Blue Jasmine, a mais recente criação de Woody Allen, é um filme sobre classes sociais ou, melhor, sobre uma crise de status. Jasmine (Cate Blanchett) é uma socialite que viveu em plena nata da sociedade mas tem presentemente razões de sobra para estar “blue”. Embora falida e dependendo inteiramente do sustento da irmã Ginger (Sally Hawkins), permanece em plena sobranceria, recusando olhar para a realidade como ela é e gerando um conflito feroz – interior e exterior – entre aquele que entende ser o seu lugar de classe, socialmente falando, e a sua condição efectiva.

Através de uma narrativa paralela, alternando entre o passado e o presente, vamos simultaneamente compreendendo como foi que Jasmine chegou a este ponto e como vai construindo um novo futuro. No presente, as mazelas de uma relação desmoronada mas sobretudo a constante sensação de peixe fora da “sua” água aproximam-na do álcool e dos fármacos, sendo rara a cena em que não está a consumir um deles. Aliás, esta fragilidade fisiológica é um traço típico dos protagonistas das obras do realizador norte-americano que não poderia faltar (mais vincadamente quando é Allen quem assume esse papel).

Encarnando a personagem principal, Cate Blanchett é simplesmente arrasadora e não é um exagero afirmar que ela “é o filme”. É a partir da sua excelente interpretação de Jasmine (mas quando foi que Blanchett não se revelou uma actriz de excelência?) que toda a acção nasce, se desenvolve e se encerra. A sua densidade emocional e os maneirismos que tão bem traduzem o desconforto e o constrangimento da personagem em interacções que normalmente evitaria tornam o restante elenco pouco mais que paisagem, embora seja justo ressaltar o interessante desempenho de Sally Hawkins na pele da irmã menos privilegiada (nem por isso menos feliz).

O desnivelamento social que pauta o filme está patente inclusivamente nos nomes das personagens: em requinte e sumptuosidade, Ginger e Chili, enquanto planta e fruto, estão vários furos abaixo de Jasmine, uma flor bela e perfumada. Mas não só de contrastes vive esta história, e é com a ajuda das letras de músicas (em tons de jazz, pois claro) que o realizador utilizou que tomamos consciência de um tema mais transversal que aqui se aborda: uma espécie de tratado sobre a dificuldade, ou impossibilidade, de encontrar o par ideal.

Talvez Woody Allen pretendesse lembrar-nos como o amor é complexo e difícil de prolongar, que o dinheiro não é garante de felicidade ou que, da perspectiva de Jasmine e em certa fase também de Ginger, o segredo para a ascensão social pode passar por encontrar o cônjuge certo. Se formos mais longe, podemos ainda encontrar em Jasmine uma metáfora da crise financeira actual: em ambas as situações, o colapso resultante de uma gestão ruinosa da elite desemboca na exploração desavergonhada e sem humildade dos recursos que restam aos menos afortunados.

Intencionalidade à parte, certo é que Woody Allen (re)fez aquilo que melhor sabe: escrever diálogos, personagens e tramas. Mas se isto não é novidade, é pelo menos intrigante que na mais recente fase da sua filmografia a qualidade se eleva quanto mais a sua escrita mais se aproxima do drama. Foi assim com Match Point e volta a sê-lo com Blue Jasmine. O que se poupa em gargalhadas (é certamente um dos filmes menos contagiantes em termos humorísticos), ganha-se em aperfeiçoamento dramático, ainda que o tom leve e iminentemente sarcástico não se perca.

Longe de acabado ou senil, Allen provou uma vez mais que, apesar de ter quase 50 longas-metragens realizadas, ainda tem muito para oferecer à sétima arte. Se Para Roma Com Amor foi claramente um ponto fraco no seu percurso, Blue Jasmine eleva de novo a fasquia e desperta a vontade de continuar a descobrir o que se seguirá ao próximo genérico com aquele clássico lettering branco sobre fundo negro.

Classificação (0-10): 8

Blue Jasmine | 2013 | 98 mins | Realização e Argumento: Woody Allen | Elenco principal: Cate Blanchett, Sally Hawkins, Alec Baldwin e Peter Sarsgaard

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