MOTELx 2013: A Reportagem

Este ano a 7.ª edição do MOTELx – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa  prometia cinco dias do melhor terror que se faz actualmente a nível internacional, apoiando sempre a criação nacional. O prémio MOTELx pretende distinguir a Melhor Curta de Terror Portuguesa e serve de plataforma para divulgar e estimular a produção nacional de cinema de terror. Os convidados deste ano foram, não um, mas dois monstros sagrados do terror: um americano – Tobe Hooper –, e outro asiático – Hideo Nakata. A acrescentar este ano foi homenageado Ray Harryhausen, célebre e seminal animador em stop-motion. Foram exibidos 80 filmes, entre curtas e longas-metragens, nacionais e internacionais, em 59 sessões de cinema, o difícil foi escolher!

Dia 1: Quarta, 11 de Setembro

A tarde começou com a estreia de V/H/S/2 , filme composto por cinco segmentos de história realizados por vários cineastas, ao mesmo estilo do primeiro (2011). Para além de não beneficiar do factor surpresa, elemento incontornável, as histórias são cada vez mais inacreditáveis mas a formula começa a esgotar-se. A tarde continuou com Shooting Bigfoot, um filme da secção Doc Terror que o MOTELx vem alimentando cada vez com mais documentários interessantes. A sessão de abertura esteve a cargo de filme Open Grave, de Gonzalo López-Gallego, presente na sala, e assumiu o nervosismo de ver o filme pela primeira vez acompanhado do público e logo em noite de abertura do festival.  O filme retrata um cenário apocalíptico onde a memória humana é a chave central desta trama. O filme vai-se revelando num suspense lento como as lembranças que voltam passo a passo num processo de reversão da amnésia. Apesar da estrutura algo convencional, o filme tem um twist interessante e pouco explorado neste género de filmes. O desafio estava lançado, a qualidade e a variedade de estilos prometia sem dúvida um grande festival!

Dia 2:  Quinta, 12 Setembro

Este segundo dia começou com mais uma antologia, mas aqui com uma premissa mais aterradora. ABCs of Death consiste em 26 partes, cada uma correspondente a uma letra do abecedário, que serviria de conceito para a morte em cada segmento. 26 realizadores de quinze países diferentes assinam este filme, com argumentos para todos gostos e uma tendência para narrativas mais realistas nos realizadores hispânicos (como sendo a violência doméstica em Ingrown, ou a história do Bigfoot) em contraste com a excentricidade asiática (em Fart, ou Jidai-geki no filme de samurais, ou no extravagante Extinction).

The-ABCs-of-death-web

De animação ao sci-fi, entre risos, gritos e crítica socio-política, este filme promete abanar o mais destemido espectador.  Em seguida, para continuar na sintonia out of the box, viria o mais recente filme de E. L. Katz, Cheap Thrills, uma das surpresas deste festival.  Uma festa à superfície, explora-se o lado mais fundo, egocêntrico e desesperado do ser humano num thriller emocionante e extravagante onde o dinheiro paga uma diversão fatal.

No âmbito do documentário o MOTELx exibiu ainda nesta tarde Room 237, documentário de Rodney Ascher que explora muitas das leituras possíveis de uma das obras mais célebres de Stanley Kubrick: The Shining. Com 30 anos de existência este filme tem “pano para mangas”, o debate e especulação que gira à sua volta é quase inesgotável, entre o genocídio de índios americanos, o holocausto e a veracidade das filmagens da chegada Neil Armstrong à lua, cinco pontos de vista de críticos são expostos através de voz off, usando clips do filme, reconstrução de mapas do hotel Overlook e animações.

Nas sessões da noite o filme em destaque foi Massacre no Texas, do convidado especial Tobe Hooper, que esteve presente para celebrar o seu filme, também adorado pela plateia. Um clássico de 1974 que marcou para sempre o cinema de terror com a densidade do argumento, a construção de personagens e momentos de puro pânico com gritos que nos ferem a alma. Na pequena intervenção que o realizador teve, revelou que a ideia deste filme surgiu:

Captura de ecrã 2013-09-16, às 16.24.21

O Massacre no Texas surgiu duma ideia que tive ao fazer compras para o natal. Como era um momento de grande pressão para mim, no meio da loja onde estava, vi umas serras eléctricas e comecei a pensar como as poderia levar até ao carro… Se ligasse uma, as pessoas automaticamente de afastariam!

Ao bater as doze badaladas a vez era de Jennifer Lynch estrear o seu novo filme Chained, um thriller psicológico que conta a história de um taxista, traumatizado por uma infância de abusos e maus tratos físicos e psicológicos, que rapta mulheres que entram “aleatoriamente” no seu taxi. O plano que se repete ao longo do filme capta o carro amarelo obliquamente, onde se vê escrito “Confort”, uma cenário de aparente normalidade no qual este taxi conduz a um único destino: a morte.

Dia 3:  Sexta, 13 Setembro

Numa sexta feira treze não há nada mais apropriado do que ver filmes de terror e foi apenas o que fizemos! Belengu, filme da indonésia Upi, colocou a fasquia alta com um thriller psicológico com vários twists do princípio ao fim, muito bem conseguidos sem nunca soar previsível. O filme vai explicando acontecimentos passados através da desconstrução do personagem principal, Elang, que é atormentado com sonhos “inocentes” com um coelho assassino. Fazendo uma espécie de loop, o filme acaba com uma cena idêntica à que começa… intensificando a impotência que o personagem Elang tem, perante quem o controla e domina psicologicamente na verdade.

byzantium09

Outro filme bastante esperado pelos amantes de vampiros era Byzantium. Passados quase vinte anos, Neil Jordan volta ao cinema de género abandonando o romance de Anne Rice a partir do qual se baseou para Entrevista com o Vampiro, adoptando agora a peça de Moira Buffini A Vampire Story para realizar Byzantium. Pelo facto destes filmes serem baseados em obras literárias e Neil aproveitar toda essa riqueza desse imaginário já construído, o filme beneficia de uma profundidade ímpar. A fotografia é espantosa, os actores são bons, destacando-se Saoirse Ronan que podia ser a capuchinho vermelho dos vampiros, inocente e cheia de boas intenções, um anjo da morte com consciência.  Aqui os vampiros são retratados como uma ordem secreta que obedece a um código de honra onde a mulheres não têm o direito de entrar, muito menos gerar novas criaturas. Clara (Gemma Arterton) quebra todas as regras e tenta sobreviver num mundo que nunca a acolheu. Numa forte crítica social ao papel da mulher na civilização e da mais antiga profissão do mundo, este filme é muito mais do que o simples romance de vampiros.

A noite continuou com mais um filme (impróprio para cardíacos): Ring na sua versão original, do convidado especial Hideo Nakata. Na sessão paralela foi exibido Dark Touch, onde a realizadora Marina de Van esteve presente para um pequeno Q&A. A realizadora, uma das poucas mulheres a realizar continuamente filmes de género, depois do muito acarinhado pela crítica In My Skin (2002), faz o terror girar em torno do universo infantil, nomeadamente com uma crítica ao abuso de crianças e aos traumas que daí advêm.

Captura de ecrã 2013-09-16, às 16.07.49

Marina de Van afirmou que quis explorar as realidade de crianças que sofrem maus tratos e que, não tendo referências de demonstrações de carinho, não o conseguem replicar ou sequer receber. Este filme é a história do que falou na vida de uma criança, fazendo com que ela não se consiga conectar com o mundo que a rodeia, e das consequências dessa mesma falha.

Para acabar o dia em grande o MOTELx desafiou a uma sessão dupla à meia noite: a ante-estreia de The Conjuring, de James Wan, que chegará às salas de cinema portuguesas a 19 de Setembro, e a repetição de V/H/S/2.

Dia 4:  Sábado, 14 Setembro

As sessões “Curtas ao Almoço” do fim de semana foram dedicadas às nove curtas em competição para o Prémio Yorn MOTELx 2013.

O dia era pautado pela presença de Tobe Hooper no São Jorge, por isso, antes da sua Masterclass, foi exibido Eaten Alive (1977). As filas para a masterclass eras assustadoras e os bilhetes estavam esgotados uma hora antes da aula começar.  De postura descontraída e animada, Hooper conquistou a audiência com o seu talento e experiência. Entre gargalhadas e clips dos seus filmes, Hooper foi partilhando as suas inspirações para alguns dos seus êxitos como Massacre no Texas ou sobre como matar personagens (não se morre de qualquer maneira) e até aspectos mais técnicos.

Depois de algumas horas em modo terror das décadas de 1970 e 1980 passámos para filmes mais contemporâneos. Kiss of the Damned, o segundo filme de vampiros deste festival, tem uma abordagem diferente mas igualmente sexy e sedutora. Xan Cassavetes, acabada de aterrar em Lisboa, ainda conseguiu chegar a tempo para assistir à sessão do seu filme, que narra a história do conflito entre duas irmãs (mais uma vez explorando a dicotomia vampiro bom versus vampiro mau) que tomam caminhos radicalmente diferentes na sua imortalidade. Com referências claras aos filmes eróticos de vampiros série B, a realizadora estreante em longas metragens comentou com a audiência:

Captura de ecrã 2013-09-16, às 16.28.38

A ideia de Kiss of the Damned partiu da casa onde a trama principal se desenrola. O espaço estava disponível e era uma casa fantástica e passados alguns anos voltei lá para realizar este filme.

Estes vampiros têm características mais “clássicas” do que em Byzantium: de dia estão recolhidos e só ao escurecer vivem aos olhos dos humanos. Têm presas, os “bonzinhos” escolhem sobreviver de sangue de animais (tal como acontecia ao jovem Louis (Brad Pitt) em Entrevista com o Vampiro) os “maus” assassinam pessoas, e há ainda os que têm acesso a sangue sintetizado (referência à série True Blood?) providenciado a uma elite pelos serviços militares. Mais uma vez uma crítica social ao estatuto elitista mas ao mesmo tempo excluído da sociedade, os vampiros poderiam ser uma raça dominante mas têm de viver escondidos, talvez apenas pelo preconceito, uma vez que a sua “fome” poderia ser controlada.

A encerrar a noite, Hideo Nakata estreou nas salas portuguesas The Complex (em jeito de prólogo para o dia que se seguia), enquanto em sessão dupla surgia mais um desafio acompanhado de uma dose de café: Girls Against Boys, de Austin Chick, juntamente com a reposição ABCs of Death.

Dia 5:  Domingo, 15 Setembro

Com uma estrutura parecida à do dia anterior, antes da Masterclass foi exibido um dos filmes do realizador em destaque no último dia do festival, Hideo Nakata, designadamente Chaos (1999), um thriller cheio de twists com inspiração na obra de Hitchcock para abrir o apetite. Seguiu-se a aula com o realizador, mais uma vez com a sala a abarrotar, e Nakata, pacato e reservado, preencheu uma hora cheia de histórias fantásticas sobre a sua carreira, o seu ponto de vista como realizador no Japão, na América e no Reino Unido, a sua preferência por dirigir actrizes e os seus truques de cinema!

Mas o dia tinha ainda muitos filmes para ver. Na sessão das sete Painless, que contou com a presença do realizador Juan Carlos Medina e do actor Tómas Lemarquis, filme co-produzido com a Fado Filmes. Tão belo quanto aterrador, conta em narrativa paralela um passado enterrado no início da Guerra civil espanhola, onde um grupo de crianças insensíveis à dor é encerrado num sanatório no coração dos Pirenéus. E no presente, a história de um neurocirurgião que descobre que padece de um tumor e só um transplante de medula óssea proveniente dos seus pais biológicos, que nunca conheceu, o poderá salvar. Estas duas realidades são entrelaçadas com mestria até um final tão romântico como perturbador.

Ainda nesta tarde teve lugar a segunda sessão do Quarto Perdido com A Promessa, de António de Macedo, seguido de um Q&A com o realizador de um dos mais emblemáticos filmes de terror portugueses.

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Na sessão de encerramento foi anunciado «O Coveiro» de André Gil Mata (em entrevista ao Cinemaville) como curta-metragem vencedora da quinta edição do Prémio Yorn MOTELx 2013.  E de seguida foi exibido o filme You’re Next, de Adam Wingard.

O MOTELx despediu-se de mais uma edição com Hell Baby, de Robert Ben Garant, e Maniac, de Franck Khalfoun, um thriller psicótico com Elijah Wood numa interpretação brilhante de um serial killer com uma estranha obsessão: cabeleiras humanas.

Nestes cinco dias o Cinema São Jorge tornou-se o sítio mais terrorífico da cidade, com enfermeiras zombies a servir bloody mary’s, góticos, punks, indivíduos traumatizados – por culpa, claro, das suas mães, pessoas estranhas por dentro e por fora. Foram cinco dias vividos intensamente: de dia com gritos, à noite com pesadelos. MOTELx, Onde o Terror é Bem Vindo!

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