Reflectir sobre o nazismo com «Hannah Arendt»

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Um dos filmes em destaque nas estreias desta semana é Hannah Arendt, um retrato do génio que abalou o mundo com a sua descoberta da “banalidade do mal”. Após assistir ao julgamento do nazi Adolf Eichmann, em Jerusalém, Arendt atreve-se a escrever sobre o Holocausto em termos inauditos. O seu trabalho provoca imediatamente escândalo e Arendt mantém-se firme ao ser atacada tanto por inimigos, quanto por amigos. Mas enquanto a emigrante germano-judia procura reprimir as suas próprias associações dolorosas com o passado, o filme expõe a sua mistura encantadora de arrogância e vulnerabilidade, revelando uma alma definida e perturbada pelo exílio.

O filme retrata Hannah Arendt (Barbara Sukowa) ao longo dos quatro anos (1961 a 1964) em que ela observa, escreve e suporta a recepção do seu trabalho acerca do julgamento do criminoso de guerra nazi Adolf Eichmann. Ao observarmos Arendt enquanto ela assiste ao julgamento, ao estarmos ao seu lado enquanto é simultaneamente metralhada pelos seus críticos e apoiada por um grupo unido de amigos fiéis, sentimos a intensidade desta judia forte que fugiu da Alemanha nazi em 1933. Arendt, impetuosa e fumadora inveterada, é feliz e bem sucedida nos EUA, mas a sua visão penetrante torna-a numa forasteira onde quer que vá.

Mas qual a motivação para fazer um filme sobre esta figura? A realizadora e argumentista do filme, Margarethe Von Trotta, explica:

A questão de como fazer um filme sobre uma mulher que pensa. Como observar uma mulher cuja principal acção é pensar. Claro que também tinha medo de não lhe fazer justiça. Isso fez com que o retrato cinematográfico fosse bem mais difícil do que, por exemplo, o de Rosa Luxemburgo. Ambas as mulheres eram indivíduos altamente inteligentes e únicos, ambas eram dotadas na sua capacidade para o amor e a amizade e ambas eram pensadoras e oradoras provocadoras. A vida de Hannah Arendt não foi tão dramática quanto a de Rosa Luxemburgo – mas foi importante e comovente.

Von Trotta partilha também a forma como abordou Arendt para além da sua dimensão política, retratando-a também como mulher, amiga e amante:

O filme é também sobre a vida dela em Nova Iorque, a vida com os amigos, o amor por Martin Heidegger – mesmo estando convencidos de que Heinrich Blücher foi uma figura bem mais importante na vida dela. Ela chamava a Heinrich as suas “quatro paredes,” querendo dizer a sua verdadeira “casa”. Heidegger foi o primeiro amor de Hannah e ela continuou ligada a ele, apesar da sua filiação com os nazis. Mesmo no início da minha investigação, Lotte Köhler, a única amiga ainda viva de Hannah Arendt, deu-me o livro da correspondência publicada entre Heidegger e Arendt. Mas assegurou-se de me dizer que Arendt tinha mantido todas as cartas dele na gaveta da mesa-de-cabeceira. Num flashback, mostramos Arendt a encontrar-se com Heidegger, durante uma visita à Alemanha. Este encontro aconteceu mesmo, apesar de, apenas algumas semanas antes de se encontrarem, ela ter escrito uma carta ao seu amigo e mentor, Karl Jaspers, em que chamava assassino a Heidegger. A sobrinha de Arendt disse que a tia explicava a relação com Heidegger insistindo que “Algumas coisas são mais fortes do que um ser humano.”

Hannah Arendt permite perceber a importância profunda das suas ideias. Mas ainda mais comovente é a oportunidade de compreender o coração caloroso e o brilhantismo gélido desta mulher complexa e profundamente arrebatadora.

O filme estreou em Portugal a 3 de Outubro e encontra-se em exibição.

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