«Abelhas e Homens»: uma luta de espécies até quando?

Abelhas e Homens

Abelhas e Homens

Belo, intrigante e pertinente. Abelhas e Homens do realizador suíço Markus Imhoof, põe em primeiro plano a relação de dependência entre duas espécies que habitam o planeta Terra. E se a palavra que pensamos quando juntamos estes dois actores é mel, desenganem-se, tal como o título original sugere (More Than Honey) as abelhas representam muito mais que a produção desse néctar.

A frase célebre de Albert Einstein “Se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a humanidade morreria dentro de quatro anos” serve de premissa a toda a narrativa. O documentário tenta explorar as razões para o desaparecimento de inúmeras colónias de abelhas, em todo o mundo, nos últimos 15 anos. Entre 50% a 90% das abelhas desapareceram, dependendo das regiões do mundo, e o porquê continua ainda desconhecido. Na busca das razões que poderão estar relacionadas com este desaparecimento, o filme atravessa continentes para nos dar a conhecer quem são os Homens que, ainda que dependendo das abelhas, as estão a explorar, manipular e em última instância a contribuir para este desaparecimento.

A&H

Através de imagens profundamente sensoriais, a história é contada pelos intervenientes directos, sempre contrastando diferentes dilemas de trabalhar com ou contra as abelhas. Numa perspectiva mais naturista, usando um plano geral, vislumbramos os Alpes Suíços onde o apicultor Fred Jaggi usa uma única espécie de abelhas para produzir mel. Aqui as Abelhas e os Homens estão enquadrados num contexto superior a eles: a natureza. O apicultor vai lidando com as abelhas com respeito e cooperação, para depois explorar o seu mel comercialmente, num equilíbrio sustentável.

Em contraste vemos um campo de amendoeiras, polinizadas por abelhas, que têm de ser pulverizadas com químicos, que por sua vez serão prejudiciais às abelhas. Ouvimos o zumbido de centenas de abelhas a fazer o seu trabalho, e o industrial diz – “Este é o som do dinheiro”. O domínio de uma economia global é explícito, as amendoeiras estão na Califórnia, mas as abelhas já vieram de longe – da Austrália, e serão depois enviadas para Espanha, onde serão descascadas e torradas. O transporte das abelhas é filmado, através de planos médios ou em grande plano, dentro das pequenas caixas que as transportam, transmitindo a sensação de clausura. As cores quentes transmitem o calor e abafamento em que têm de sobreviver durante alguns dias. Estas alterações nas condições de vida das abelhas provocam stress, geram doenças e propiciam a criação de ácaros, e vírus que as matam ou enfraquecem. A aceleração económica provocou um escalamento sem precedentes na dimensão das explorações industriais. De tal modo, que o industrial diz que se o seu bisavô, que iniciou o negócio, visse a fábrica e o modo como tratam as abelhas, ficaria perturbado. A pressão do sistema capitalista para que haja um crescente lucro, leva a uma progressiva desumanização do negócio. A utilização de grandes planos denunciam essa face, focando os robots que escorrem o mel da cera, esmagando as abelhas que estiverem no caminho.

Um outro nível de dominação do ser humano sobre este processo “natural” é feito através de manipulação genética. A criação de abelhas substitui larvas que seriam operárias, trocando-as de alvéolos e colocando-as artificialmente numa realeira, tornando abelhas operárias em rainhas. Deste modo é possível domesticar as rainhas da colmeia, tornando-as dóceis e boas produtoras de mel.

Numa tentativa de substituir o papel polinizador das abelhas, na China, o Homem vende pólen e depois distribui-o de flôr em flôr, com cotonetes ou paus de bambu com penas de galinha na ponta.

 Abelhas

Por outro lado o documentário ilustra o complexo sistema das abelhas, através de ilustrações gráficas, que exemplificam de um modo interessante o trabalho de vários cientistas. Como o biólogo Flitsch e a sua pesquisa sobre a dança da abelha, o seu trabalho sobre o modo como as abelhas comunicam entre si, foi laureado como prémio Nobel em 1973. Ou o professor Randolf Menzel neurobiólogo da Universidade Livre de Berlim, que explica que a colmeia é um super-organismo. No sentido em que ama abelha não consegue sobreviver sozinha, a colónia de abelhas é considerada como um único e grande animal, onde as abelhas operárias são o ‘corpo’, e o zangão e a rainha são os ‘órgãos sexuais’ masculino e feminino.

Mas apesar de tudo a evolução e adaptação têm sempre uma palavra a dizer no jogo da vida, e novas espécies de abelhas surgem mais violentas, menos subservientes, a resistirem a esta domesticação da espécie.

Um outro ponto de vista surge, finalizando o círculo, apesar de mais agressivas, um apicultor do Arizona, consegue obter mel de abelhas assassinas dizendo:

“Não são dóceis como as abelhas domésticas normais. É por isso que não adoecem. Também são óptimas produtoras de mel. Só é preciso não as provocar…”

Levando à conclusão que quando a relação entre Abelhas e Homens é de cooperação e não exploração, então ambos ganham.

Os planos de detalhe mostram a carapaça e os olhos grandes das abelhas, aumentando-as, tornando-as tão grandes quanto os homens – realçando o seu papel preponderante na vida deste, questionando o espectador das consequências das acções do Homem, que mais uma vez ameaça mais um ecossistema sem se aperceber que o fim de uma parte pode significar o fim do ecossistema total.

Classificação (0-10): 8

Abelhas e Homens | 2012 | 88 mins | Realização: Markus Imhoof | Argumento: Markus Imhoof, Kerstin Hoppenhaus | Elenco:  Fred Jaggi, Randolf Menzel, John Miller,

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