«A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2»

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Adaptando livremente a novela gráfica de Julie Maroh, intitulada Le bleu est une couleur chaude, Abdellatif Kechiche realiza A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2 e cria um dos filmes mais honestos e intensos (pelo menos) de 2013. Comecemos pelo título, que em si já diz bastante acerca do filme. Na tradução para o inglês a escolha foi  Blue Is The Warmest Color, enfatizando a opção estética pela omnipresença da cor no filme, que relembra o capítulo Azul da trilogia de Kieslowski. No original, tal como em português, realça-se o lado biográfico da narrativa, que se propõe a acompanhar, porém nunca se resume apenas a isso, os dois primeiros “capítulos” da vida da jovem Adèle (Adèle Exarchopoulos) atravessando cronologicamente uma década.

Assumindo que a vida só “começa” com a maioridade, a primeira parte do filme é dedicada a essa fase e à descoberta da sexualidade, apresentada em plena sala de aula como um prenúncio. “Como é que sabemos que algo falta ao nosso coração?” é a questão que se coloca a propósito da análise ao livro “A Vida de Marianne”, de Marivaux (curiosamente um romance inacabado cujas duas primeiras partes foram publicadas em 1731). “O que fazer perante a fragilidade de instantes em que os olhares de duas pessoas se cruzam na rua por acaso?”, volta-se a perguntar, antecipando o encontro hipnotizante e casual com Emma (Léa Seydoux), com quem Adèle vai descobrir a verdadeira sexualidade. Este processo dá-se, importa dizê-lo, no seio de diversas pressões sociais altamente normativas, em particular das colegas de escola que a incitam iniciar a sua vida sexual (com rapazes, claro) e a partilhá-la em conversa.

Todavia, é na companhia de Emma, rapariga mais velha de cabelo tingido de azul, mais vivida, supostamente mais adulta, que Adèle esboça o seu primeiro sorriso genuinamente feliz, e será com Emma que vai compreender que, conforme o afirmou Sartre, a existência precede a essência e a vida é sobretudo aquilo que quisermos fazer dela. Ainda no primeiro capítulo a paixão desenvolve-se, aprofunda-se, torna-se visceral e as suas vidas alinham-se em função uma da outra. Pelo meio surgem as tão polémicas e sobrevalorizadas cenas de sexo gráficas e carnais, na fronteira entre arte e a pornografia, porém sem artifícios, cruas mas nunca vulgares ou falsas, que nos fazem sentir mais contrangimento e intrusão do que voyeurismo.

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De facto, raras vezes no cinema foi captada com tanta precisão a cumplicidade amorosa e sexual de duas pessoas, que podem afinal ter menos em comum do que imaginam. Começam a vir à tona os seus diferentes backgrounds sociais, espelhados particularmente no modo de vida das suas famílias, com valores, aspirações e rituais bem distintos. É em plena vida a dois que se atinge o ponto de transição para o segundo capítulo, onde o tema está mais distante das questões de identidade sexual e abraça as do conflito de classe e de pertença social, revelando diferenças quanto ao projecto de vida e à visão do amor de cada uma que a paixão não permitia antever.

Para além da conquista da Palma de Ouro em Cannes, este filme marcou o festival por ter sido pela primeira vez entregue o prémio não só ao realizador mas também às duas actrizes principais, o que remete para o facto de que este filme nunca seria o mesmo sem o superior desempenho de Adèle Exarchopoulos (durante a rodagem o nome da actriz  tornou-se também o da protagonista) e de Léa Seydoux. O enorme compromisso com as personagens é latente desde a intensa primeira sequência em que contracenam, sempre com uma química incrível na linguagem tanto verbal como corporal. Aliás, as duas só foram autorizadas a ler o argumento uma vez, de modo a acentuar a espontaneidade e naturalidade da interacção. Mas de entre elas destaca-se Exarchopoulos, cuja autenticidade leva o espectador a acreditar na personagem, de tal forma que a actriz nem parece estar a representar. Claro que muito contribui a visão de Kechiche, que posiciona a câmara quase sempre próxima do rosto de Adèle, registando cada sorriso, cada lágrima e até uma certa embriaguez amorosa no olhar.

A vida de adele azul

Trata-se de uma abordagem marcada por um hiper-realismo muito próximo do que recentemente encontrámos em Amor (Michael Haneke), considerando, a título ilustrativo, que as actrizes raramente usam maquilhagem e que não existe banda sonora artificialmente adicionada (apenas ouvimos música em situações em que esta na “realidade” existiria), e cuja única eventual fraqueza é provavelmente a sua duração de três horas. Não que seja penosa – e provavelmente teríamos um filme diferente se lhe substraíssemos uma hora para ficar de acordo com a duração mais convencional – mas é frequente identificarem-se segmentos onde um corte substancial seria bem-vindo sem prejuízo do resultado final (as aulas dadas às crianças ou a festa de Emma são dois casos).

No fundo, como o título aponta, os próximos capítulos da história de Adèle são deixados em aberto, mas o azul, que aqui se faz corresponder ao amor, tanto pode desvanecer como a tinta do cabelo como impregnar-se e perdurar para lá do imaginável. Em A Vida de Adèle trata-se por isso, e tão simplesmente, da descoberta do primeiro grande amor, de mergulhar de cabeça no êxtase e nos revezes, provavelmente até à eternidade.

Classificação (0-10): 9

A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2 | 2013 | 179 mins | Realização: Abdellatif Kechiche |  Argumento: Abdellatif Kechiche e Ghalia Lacroix | Elenco principal: Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux e Salim Kechiouche

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