«O Clube de Dallas»: vencendo o vírus da resignação

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O Clube de Dallas é um filme sobre um homem que num twist da sua vida se vê obrigado a fazer a sua própria sorte e lutar pela sua cura. Baseado na história real de Ron Woodroof, este é uma abordagem corajosa, honesta e tocante. Realizado por Jean-Marc Vallée, conhecido por Café de Flore ou C.R.A.Z.Y. Extraordinary lives of ordinary people in search of love and happiness, esta é mais uma história de vida extraordinária.

Em plena década de 1980, o vírus HIV era automaticamente associado a grupos marginalizados, como a comunidade homossexual que se envolvia em práticas de sexo desprotegido ou os utilizadores de drogas intravenosas. Neste cenário, o típico macho heterossexual, que de igual modo não usava preservativos nas suas relações, considerava-se imune à doença. O plano inicial é a analogia disso mesmo: ouvimos uma respiração ofegante, vemos um homem que vive ao máximo, fazendo sexo com mulheres com a mesma atitude com que monta bois num rodeo ou como foge de inimigos após uma aposta perdida. Sempre no limite, sempre na superfície do seu ser. Mas Woodroof não tem um carácter fútil. Face a uma doença mortal, e com a expectativa de ter apenas mais 30 dias de vida, vemos esta personagem evoluir e começar uma vida nova mais desperta para o mundo que o rodeia, seja isso na aceitação da diferença e na diluição de preconceitos (como o ilustra bem a cena no supermercado em que defende Rayon perante o seu amigo homofóbico), seja da comida que nos vendem e nos enche o organismos de químicos e substâncias nocivas ou, na dimensão mais emblemática do filme, de um sistema de saúde minado pelos interesses económicos dos grandes lobbys farmacêuticos que nos retira a liberdade de sermos críticos, de pesquisarmos e decidirmos livremente o que administramos no nosso corpo.

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Superada a negação da doença, Woodroof começa uma jornada de auto-consciencialização que lhe potencia tanto a qualidade de vida como o impacto à sua volta, quer em doentes quer em médicos e no sistema legal dos fármacos. Se Filadélfia foi um filme impactante no que toca à sensibilização para o flagelo da SIDA em países desenvolvidos, O Clube de Dallas é uma chamada de atenção para o conflito de interesses entre a gestão do problemas pelas vias legais e soluções alternativas (portanto “ilegais”) motivadas pela urgência das vítimas do vírus, capacitando-as a serem mais pro activas.

O avançar da doença é captado através de aspectos técnicos, como os zumbidos de intensidade variável que o sufocam, as alucinações, de que é exemplo o palhaço no meio da arena de rodeo, ou cortes abruptos na montagemmais do que propriamente pela banda sonora.

Apesar da toada séria e mortal do filme as personagens são excêntricas e positivas, não tanto pelo optimismo mas pela atitude construtiva, pois em vez de se resignarem estão sempre em busca de uma nova forma de ultrapassarem os obstáculos. O guarda-roupa dá um toque divertido, exagerando características psicológicas espontâneas e contrastantes.

Matthew McConaughey interpreta brilhantemente Ron Woodroof, um electricista que faz apostas nos rodeos de Dallas, intrincado na cultura texana e duro até aos ossos. Para além da incontornável transformação física, o sotaque (que já vimos em McConaughey noutros filmes mas que aqui ganha outra dimensão) e o humor rude marcam este homem que prefere “morrer com as botas calçadas”.

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Por sua vez, Jared Leto consegue interpretar um travesti tão excêntrico quão sensível. O olhar de Rayon (ou “miss man” como lhe chamou Ron) é tão delicado como a sua fragilidade física, e desde Requiem for a Dream que Leto não tinha uma interpretação tão intensa. A relação explosiva entre estas estas duas figuras opostas – Ron e Rayon -, que são apenas lados diferentes da mesma moeda, é bem explorada pelos actores e o jogo de constante picardia camufla uma amizade e respeito profundos entre duas pessoas que se apoiam ainda que não se identifiquem mutuamente.

Depois de largos anos guardado na gaveta, O Clube de Dallas é um filme poderoso cuja principal valia está não apenas nas superiores interpretações da dupla McConaughey/Leto mas na forma inteligente como, a partir da história real de Woodroof, relança a polémica em torno da linha ténue que existe entre fármacos e drogas, cuja distinção depende simplesmente dos organismos reguladores e dos interesses económicos subjacentes, raramente ao serviço de quem mais precisa de tratamento.

Classificação (0-10): 9

O Clube de Dallas | 2013 | 117 mins | Realização: Jean-Marc Vallée | Argumento: Craig Borten e Melisa Wallack | Elenco principal: Matthew McConaughey, Jared Leto e Jennifer Garner

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