A ganância e a luxúria d’«O Lobo de Wall Street»

O Lobo de Wall Street

O Lobo de Wall Street marca a quinta colaboração entre Martin ScorseseLeonardo DiCaprio, uma das duplas mais profícuas do século XX, num filme dedicado à história real de Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), baseado nas memórias que este escreveu enquanto esteve preso. Como corrector da bolsa, Belfort traçou um percurso sem escrúpulos e protagonizou uma ascensão explosiva graças a múltiplas práticas ilícitas, movido por uma ganância e uma sede de facturação que lhe permitiram ainda na fase inicial da carreira, com apenas 26 anos, tornar-se multimilionário.

Scorcese começa esta longa metragem com um anúncio publicitário da firma Stratton Oakmont, fundada por Belfort, no qual se promete o conhecimento, o compromisso e a estabilidade essenciais para vingar na selva financeira. Logo de seguida, impondo cedo o ritmo frenético da narrativa, passa-se à realidade: uma festa de arromba em plenos escritórios da empresa, que entre as muitas “atracções” inclui um concurso de lançamento de anões. Este choque estabelece assim o abismo que há entre o modus operandi interno de Belfort e seus associados e a imagem vendida para o exterior, contraste essencial para, recuando alguns anos, se seguir e compreender o percurso de Belfort a partir do momento em que inicia a actividade.

O seu primeiro mentor foi Mark Hanna (Matthew McConaughey), um exuberante big-shot que apresenta Belfort ao mundo da bolsa e cedo lhe explica que a melhor prescrição para o sucesso no ramo consiste em drogas pesadas e martinis, várias vezes ao dia. Porém, o crash de 1987, também conhecido como Black Monday, obriga Belfort a procurar novo trabalho em Long Island, onde começa a construir a sua fortuna a transaccionar pequenas acções ou, nas palavras do próprio, a “vender lixo a homens do lixo”.

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Apesar de este ser um elenco globalmente bem escolhido e bem sucedido, é Jonah Hill quem sobressai como Donnie, o discípulo-mor de Belfort, com quem funda a Stratton Oakmont e estabelece uma dinâmica imparável. A sua dentição proeminente e branqueada, as suas inclinações sexuais ou o seu desprezo pela humanidade em geral fazem de Donnie uma personagem contagiante, tão ou mais ambiosa e bajuladora que o próprio “lobo”. Todavia, este filme nunca seria o que é se não fosse protagonizado por DiCaprio (o que se aplica a quase todas as colaborações do actor com Scorcese). Um dos melhores – senão o melhor – da sua geração, continua a superar-se e capta perfeitamente a essência deste homem irremediável e arrogante que não se fez rogado em ter tudo aquilo que o dinheiro pode comprar (drogas, prostitutas, barcos ou helicópteros). Feroz e in your face, a performance de DiCaprio é rica e intoxicante, seja a rastejar perante a ameaça do jejum sexual da sua mulher Naomi (Margot Robbie) ou a discursar perante os seus discípulos a la Gordon Gekko (personagem interpretada por Michael Douglas em Wall Street). Não se trata apenas de interpretar o papel, mas de inspirá-lo e fazê-lo correr nas veias como se de uma dose de pó branco se tratasse.

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Durante perto de três horas de realização electrizante (trata-se do filme mais longo do realizador, com um minuto a mais do que Casino) capta-se de forma irresistível a descida ao mundo infernal dos correctores da bolsa num registo que tem muito em comum com os diversos filmes de gansters que Scorsese já realizou. Em O Lobo de Wall Street está de regresso um Scorsese sem piedade, que aos 71 anos de idade não mostra sinais de abrandamento e regressa ao seu bom velho estilo, voltando a sujar as mãos (as 506 vezes que se ouve a palavra “fuck” são um recorde e um bom exemplo) depois do bem mais asseado A Invenção de Hugo. Em registo de comédia negra, misturam-se ingredientes bastante presentes na sua filmografia, nomeadamente em A Cor do Dinheiro, Casino ou Tudo Bons Rapazes, tanto em relação ao fascínio e obsessão pela fortuna como às formas pouco ortodoxas de a alcançar. 

Excepção feita à cena do iate em alto mar, esta é uma obra comedida em termos de produção quando comparada com O Aviator ou Gangs de Nova Iorque, mas não deixa de surpreender e inovar, seja quebrando a barreira com o espectador (por diversas vezes DiCaprio dirige o olhar para a câmara e fala directamente para a plateia) ou construindo cenas épicas que persistem na memória, quase sempre envolvendo doses desmedidas de estupefacientes e revelando recursos de humor físico até então desconhecidos, tanto de Scorcese como sobretudo de DiCaprio.

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No essencial, com esta comédia negra, suja e escandalosamente divertida sobre o crime de colarinho branco, com uma narrativa impiedosa e graficamente intensa, Scorsese mostra-se uma vez mais capaz de levar ao grande ecrã um conjunto de figuras ambíguas, tão revoltantes quão fascinantes. Quanto a Belfort e à moral da história, se pensarmos que ao sair da prisão publica um livro auto-biográfico que se torna um sucesso, começa a dar workshops motivacionais e, alguns anos depois, leva Scorcese e DiCaprio a retratá-lo no cinema, talvez estejamos simplesmente perante um lobo em pele de cordeiro.

Classificação (0-10): 9

O Lobo de Wall Street | 2013 | 180 mins | Realização: Martin Scorsese | Argumento: Terence Winter  | Elenco principal: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill e Margot Robbie

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