«Filomena»

Filomena

O trabalho de contar uma história pode ser incrivelmente penoso. Todas as perguntas que assolam o escritor: a maneira de contar, a razão para contar a história, quem a quererá ouvir. É este o foco principal deste filme de esperança, solidão, desespero, procura, a procura incansável de uma mãe por um filho. Ao fim de 50 anos a esperança não envelhece nem morre, muito menos. A história é a de Philomena, uma velha senhora irlandesa, solene na forma de andar, no semblante e encantadora na maneira de falar. Excessivamente humana, apesar da anca de titânio (para não enferrujar) que carrega, para ela todas as pessoas são boas e especiais por natureza e isto só lhe confere mais charme, fazendo com que nos afeiçoemos a ela e soframos com ela ao longo do tempo.

Philomena Lee é interpretada brilhantemente pela atriz Judi Dench, a Grande Dama do cinema, que nos prende à tela com o seu charme britânico irresistível, charme de aristocrata rebelde que temos vindo a adorar. Longe de ser uma desconhecida, ganhou notoriedade do grande público pela sua representação da austera M nos últimos filmes de 007 mas foi com o filme A Paixão de Shakespeare que ganhou o seu primeiro e único (até agora) Oscar da Academia para Melhor Atriz Secundária.

Steve Coogen interpreta Martin, o jornalista que se vai encarregar de contar a história desta velha senhora e que, pelo temperamento que apresenta, vai constituir uma espécie de personagem antagónica à de Philomena. Um homem de carácter pretensioso, pedante e superficial no julgamento das outras pessoas, vai ser escorraçado das grandes cadeias televisas britânicas por se ver envolvido num escândalo que lhe destrói a carreira e a deixa sem rumo.

Perante esta interrupção da carreira jornalística ele vê-se sem alternativas. É nesta altura que é interpelado por uma jovem empregada de mesa que lhe propõe fazer uma peça jornalística acerca da sua mãe, Philomena, e da sua incessante procura pelo filho que perdera à 50 anos. A princípio, Martin declina a proposta, troçando da vulgaridade que um trabalho de interesse humano como aquele acarretava. No entanto, na iminência de não voltar a trabalhar mais como jornalista, acaba por aceitar falar com Philomena.

Filomena 02

Os primeiros encontros dos dois revelam os extremos opostos que aquelas duas figuras representam, com Philomena a ter dificuldades em entender o humor seco do jornalista e este a não esconder de maneira alguma a condescendência com que a trata e que ela finge não compreender. Philomena conta então ao jornalista a sua história, a maneira como engravidara quando era ainda adolescente e a forma como lhe havia sido tirada a criança pelas freiras do convento onde habitava. Não é difícil perceber a intenção de criticar as atitudes daquelas que deveriam ser as “servas de deus”, e o filme destaca claramente a completa selvajaria que tomava lugar no solo sagrado daquele convento irlandês.

O seu filho Anthony é, por fim, adotado e ela perde-lhe o rasto. A busca por Anthony vai levá-los das incríveis paisagens campestres irlandesas até à luminosa cidade de Washington, D.C. numa viagem em que notamos uma evolução na relação entre estas duas personagens, com situações cómicas que amenizam a ação principal dramática do filme e que demonstram, sem sombra de dúvida, a incrível capacidade de construção de diálogos que Steve Coogen (que escreveu o guião em conjunto com Jeff Pope) tem. A indiferença de Martin transforma-se lentamente numa obsessão para encontrar a verdade que aquela mulher procura e que parece envolta em véus de mentira e secretismo.

Filomena destaque

O trabalho de realização notável de Stephen Frears, sobrepondo em cena um magnífico trabalho dramático com um destinto humor que nos faz cair na realidade, fazem deste um incrível trabalho cinematográfico, sendo por vezes um pouco lento na progressão da história. A abordagem informal de temas como a teologia, a religião, o perdão, a sexualidade e o mundo sensitivo incitam o espetador a uma reflexão crítica que por vezes é necessário nestes filmes carregados de estigmas sociais. Todo o trabalho de construção de imagem, de estudo e de construção cénica é de louvar, tal como a iluminação que faz sobressair pequenos pormenores das personagens que fazem toda a diferença no contexto global do filme como, por exemplo, os olhos azuis, profundos e luminosos de Judi Dench que iluminam uma cena.

Resta dizer que Filomena é um filme que vai impressionar e talvez até emocionar o espetador, podendo ser assistido tanto por apreciadores do genéro dramático como por aqueles que apreciam comédias inteligentes com um guião repleto de wit, baseado em factos reais.

Classificação (0-10): 8

Filomena | 2013 | 98 mins | Realização: Stephen Frears | Argumento: Steve Coogen e Jeff Pope | Elenco principal: Steve Coogen e Judi Dench

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