«Her – Uma História de Amor» dos tempos modernos

Uma História de Amor

O relacionamento entre seres humanos e tecnologia dotada de inteligência não é terreno virgem no cinema. 2001 Odisseia no Espaço, Inteligência Artificial, S1mone ou Robot e Frank são apenas alguns exemplos de como na sétima arte há muito se preconiza acerca do lugar da tecnologia na existência humana. Her – Uma História de Amor volta a fazê-lo, e particularmente bem, ao focar talvez a forma mais especificamente humana de relacionamento: o amor romântico.

Para tal, Spike Jonze retrata uma realidade distópica passada num futuro desconhecido porém não muito distante, que inteligentemente se apresenta em simultâneo assustador e comovente. Esta capacidade de representar o surreal de forma natural e plausível não é nova no realizador (basta pensar em filmes como Queres ser John Malkovich? ou O Sítio das Coisas Selvagens), embora estivesse em parte ancorada na parelha com Charlie Kaufman. Desta vez apenas por sua conta, Jonze escreve e realiza uma história centrada na vida de Theodore (Joaquin Phoenix), que se vê emocionalmente envolvido com um sistema operativo que dá pelo nome de Samantha (Scarlett Johansson). 

Num filme sobre uma realidade marcadamente digital é interessante que a fonte manuscrita surja simbolizando a faceta humana da palavra, de que são exemplos o grafismo do título e as cartas “escritas à mão” (ainda que através de um mecanismo de reconhecimento de voz) produzidas pela empresa onde Theodore trabalha, expressando em palavras, e por encomenda, as emoções dos clientes que não têm tempo ou inspiração para o fazer. A ironia do argumento está no facto de Theodore ser um dos mais talentosos funcionários desta “fábrica de declarações” mas revelar-se incapaz de transpor para as suas próprias relações afectivas essa mestria.

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Na ressaca do fim da relação com a sua ex-mulher, é com Samantha (“o primeiro sistema operativo com consciência”) que Theodore encontra nova alegria de viver. E é com a evolução desta relação que o filme coloca as suas principais questões. Pode o amor ser programado? Pode um sistema operativo ter ego? Estará o Homem a virar costas a si próprio para se refugiar na tecnologia? Será que o amor não passa de uma construção humana, uma “forma de demência socialmente aceitável?”

Num paradigma em que emoções e relações são digitalmente mediadas cresce o desconforto da relação direita e real, como o demonstra bem o encontro de Theodore com a mulher interpretada por Olivia Wilde. A insegurança misturada com o egocentrismo da maior parte das relações entre humanos retratadas tornam sistemas operativos opções menos arriscadas e moralmente aceites, como se de uma diferença física ou cultural se tratasse. É necessário recorrer-se ao olhar pueril de uma criança, a única personagem que, sem julgamento associado, não vê qualquer senso na relação com um ser não-humano, nem tão pouco na sua existência.

Se uma entidade artificalmente inteligente pode desenvolver personalidade, será possível que tome consciência da sua superioridade face ao humano ou até mesmo da sua “imortalidade”? Será este tipo de inteligência a verdadeira compressão do espaço e do tempo?

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Questões e mais questões para as quais Her – Uma História de Amor não tem respostas definitivas. Certezas só mesmo do imenso talento de Phoenix, que entranha mais esta personagem e enche o ecrã de emoção um grande plano após o outro. Mais surpreendente é o desempenho de Scarlett Johansson, que tendo substituído Samantha Morton já na fase de pós-produção tem uma das melhores interpretações da carreira sem surgir uma única vez em plano.

Desde o cenário urbano ligeiramente futurista ao guarda-roupa com mais cor e alegria que a própria vida das personagens, a direcção artística é um paraíso, devidamente complementada com uma banda sonora minimal (composta conjuntamente pelos Arcade Fire e por Owen Pallett), que cria um ambiente tecnológico sem perder de vista a sensibilidade e delicadeza que fazem justiça às emoções que transbordam do ecrã.

Divertido, melancólico e subtilmente alarmista: assim se define uma obra que coloca na ordem do dia o paradoxo entre a omnipresença da tecnologia e das possibilidades de comunicação e o crescente isolamento e distanciamento social.

Classificação (0-10): 9

Her – Uma História de Amor | 2013 | 126 mins | Realização e argumento: Spike Jonze | Elenco principal: Joaquin Phoenix, Amy Adams e Scarlett Johansson

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