«Capitão Phillips»

Capitão Phillips

É deveras irónico o significado que damos a uma palavra mudar tanto ao longo do tempo. A palavra pirata levava-nos instantaneamente, quando éramos crianças, para um mundo de grandes navios com velas negras, marinheiros grandes e fortes e capitães audazes, corajosos nas suas expedições. Mas a verdade é que esta palavra mudou o seu sentido a um ponto em que não nos vem sequer à cabeça esse fantástico mundo de aventura. Vem-nos, sim, a imensa tragédia humana por que passam um pequeno grupo de homens, pescadores da zona da Somália, que vêem as suas águas poluídas, ocupadas por grandes cargueiros que transportam mercadorias para todo o mundo, mercadorias de luxo que se destinam aos países desenvolvidos do ocidente. Enquanto isto acontece, este grupo de pescadores vê as suas famílias morrerem de fome, não tendo outra opção senão a de atacar ou “piratear” estes enormes cargueiros, ato que tem tanto de vingança como de sobrevivência.

É no meio desta difícil e incómoda realidade que este projecto se insere, baseado no testemunho do próprio Capitão Philips, narrado no livro “A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALS, and Dangerous Days at Sea”. O filme foca-se quase inteiramente no sequestro do navio Alabama Mersk, deixando muitas dúvidas acerca das origens e da situação das duas personagens antagónicas (o Capitão Richard Philips e o líder do bando de piratas). Algumas características são reveladas subtilmente mas a história ganharia muito mais ímpeto com uma maior exploração das personagens.

Começa-se por revelar a personagem principal, o Capitão Richard Phillips, que se prepara para embarcar no grande navio de mercadorias. Ficamos a saber que é casado e que tem dois filhos, para além disto é de notar a preocupação da sua mulher em relação a esta viagem, o que pode ser visto como um presságio do que estará por vir.

Paralelamente, são-nos mostradas as costas da Somália e é-nos impossível desprezar as condições miseráveis em que a população vive. Todos com um aspeto tísico, mascando um qualquer tipo de erva e fumando cigarros, fazem fila para nomear aqueles que serão encarregados de assaltar os navios, pois esse é o seu único meio de subsistência. Um a um, pegam numa metralhadora e em pequenas embarcações rumam ao alto-mar e à promessa de dinheiro fácil. São, na sua maioria, muito jovens.

Captain_Phillips destaque

Este paralelismo extremo vai ser crucial na relação que se estabelece entre as duas personagens. Richard Phillips toma as rédeas do grande navio e, desde o início, mostra-se extremamente zeloso e competente em relação à função que desempenha. Posto isto, quando o navio é atacado por uma pequena embarcação a motor tripulada por quatro piratas, não admira que Philips lide de maneira fria e calculosa com a situação.

Depois de uma intensa batalha entre a tripulação do cargueiro e os piratas, estes últimos conseguem subir a bordo e tomar a tripulação refém. Seguem-se momentos de extrema tensão provocada pelos sucessivos confrontos entre as duas fações. A desconfiança entre os dois lados concorrentes é óbvia, motivada pela natureza da situação, mas as duas personagens que representam, de certa forma, as figuras de autoridade concluem que são meras peças num jogo que é controlado por terceiros, chegando a uma espécie de acordo psicológico apenas possível entre pessoas que se considerem intimamente semelhantes.

Capitão Phillips é dirigido por Paul Greengrass, que nos tem habituado a filmes intensos e de grande sucesso junto do público, como Ultimato e Supremacia. Este filme não é exceção, com cenas de suspense muito bem coordenadas e o uso de planos fechados que realça ainda mais a capacidade dramática de todos os atores.

Falando de atores é fundamental referir o excelente trabalho de representação por parte de Tom Hanks, que desde há muito nos tem habituado a excelentes performances dramáticas, e do desconhecido ator (Barkhad Abdi) curiosamente nascido na Somália, que já ganhou o BAFTA por este seu papel e junta-lhe ainda nomeações para Melhor Ator Secundário nos Oscars e nos Globos de Ouro.

Resta dizer que, para além de extremamente bem conseguido, merece ainda mais louvor pelo facto de abordar um tema incómodo mas, sem dúvida, importante para um melhor conhecimento das diferenças entre civilizações.

Classificação (0-10): 7

Capitão Phillips | 2013 | 134 mins | Realização: Paul Greengrass | Argumento: Billy Ray, adaptado do livro de Richard Phillips | Elenco principal: Tom Hanks, Barkhad Abdi, Catherine Keener e Barkhad Abdirahman 

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