«Ciclo Interrompido»: o amor ao som do bluegrass

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Do realizador belga Felix Van Groeningen, estreia uma pérola que não deve passar despercebida: Ciclo Interrompido, candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro. O argumento, baseado na peça de teatro assinada por Johan Heldenbergh (que representa um dos papéis principais) e Mieke Dobbels, conta-nos a história de uma paixão arrebatadora entre Didier (Heldenbergh), ateu e músico de bluegrass e Elise (Veerle Baetens), uma tatuadora crente. As suas personalidades contrastantes são atraídas como dois pólos de um íman, numa harmonia perfeita de vozes, de alma, de corpos que se fundem nessa tempestade de paixão livre e descontrolada. Os planos fechados focam o toque, o entrelaçamento de dois corpos que se amam, enquanto os actores têm um desempenho excepcional e uma química arrebatadora.

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Como numa fábula alternativa, a princesa tatuada pela sua história de vida e o cowboy que toca banjo apaixonaram-se, gerando uma menina de nome Maybelle (Nell Cattrysse) que num twist de film noir viria a sofrer de uma doença terminal. A música é um elemento crucial, o bluegrass ora alegre ora melancólico embala-nos nos diversos estados de espíritos e vai conduzindo a história.

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As influências culturais e políticas dos E.U.A. numa Europa com sentimentos de inferioridade são também alvo de análise. Didier é um admirador da América, terra de oportunidades e de sonhadores (como ele descreve), que rapidamente se desencanta e o sonho desaba sob a presidência de George W. Bush. Nova Iorque está prestes a sofrer um golpe profundo, ao mesmo tempo que Maybelle dá os primeiros passos na sua verticalidade frágil – uma metáfora que não trouxe bons augúrios.

A temática da religião é inevitavelmente abordada neste contexto em que os personagens são forçados a lidar com a morte e a fragilidade humana. O argumento explora duas formas diferentes de sobreviver a uma situação limite: por um lado a fé, que pode atenuar ou ser um refúgio quando tudo deixa de fazer sentido (no caso de Elise); por outro o encarar a dura realidade de que somos pequenos e impotentes perante tais situações, sem buscar nenhum conforto na espiritualidade (Didier, que acumula uma revolta que explode em frente à televisão quando Bush veta a pesquisa de células estaminais, ou no meio de um espectáculo).

O filme utiliza vários avanços e recuos temporais, como o recuo de sete anos desde as cenas iniciais no hospital até ao início do relacionamento, em elipses bem conseguidas, sem estupidificar o espectador e que servem o suspense, a imprevisibilidade e os pontos altos e baixos emocionais da história. Nesta avalanche de emoções somos tentados a tomar uma dose de paixão enebriante: será que saímos ilesos?

Classificação (0-10): 9

Ciclo Interrompido | 2012 | 111 mins | Realização: Felix Van Groeningen | Argumento: Felix Van Groeningen Carl Joos, (peça)Johan Heldenbergh, Mieke Dobbels| Elenco principal:  Veerle Baetens, Johan Heldenbergh, Nell Cattrysse

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