ENTREVISTA: Ferenc Cakó, o mestre da animação com areia

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Pioneiro da técnica de animação com areia, Ferenc Cakó é um artista/realizador húngaro de renome internacional que graças às suas curtas metragens já colecciona na sua estante uma Palma de Ouro do festival de Cannes e um Urso de Ouro do festival de Berlim, tendo actualmente o seu próprio estúdio. A propósito da 13ª edição da Monstra, presenteou Lisboa com um incrível espectáculo ao vivo, será ainda objecto de uma retrospectiva (20 Mar, 20h15 no Cinema São Jorge: Sala 3) e teve a gentileza de estar à conversa connosco.

Cinemaville: Como e quando decidiu optar pela animação com areia em detrimento de outro tipo de expressão artística?

Ferenc Cakó: Quando eu tinha 13 anos por vezes ia a um estúdio na Hungria chamado Pannónia, que concentrava perto de 40 realizadores. Lembro-me bem de um fantástico animador de marionetas chamado Otto Foky, gostava muito das suas figuras, eram muito simples e trabalhava com bons materiais. Mais tarde formei-me em Belas Artes, como designer gráfico, mas tudo começou quando realizei um filme amador e com ele ganhei um importante prémio de animação na Hungria. Em resultado disso o Pannónia convidou-me para trabalhar nos seus estúdios, onde permaneci durante 20 anos. Inicialmente trabalhei com animação de objectos (aos 29 anos realizei The Chair), mas também com marionetas, em papercut, criei uma série de filmes de animação em barro e só depois veio a areia. Uma década mais tarde, com 38 anos, realizei Ab Ovo, a minha primeira experiência em animação com areia e o facto de ter ganho a Palma de Ouro em Cannes foi fantástico.

A minha carreira teve principalmente dois caminhos: o primeiro, da animação com areia através da técnica stop-motion; o segundo, que surgiu há 18 anos atrás quando me lembrei de perguntar aos meus colegas se seria possível projectar em tempo real a imagem do meu trabalho com areia. Quando tal se concretizou comecei a fazer performances em grandes salas de espectáculo, por vezes acompanhado de orquestras ao vivo, algo que adoro. Isso possibilitou-me viajar imenso, desde o Dubai ao Japão, aos Estados Unidos ou à Rússia. Fiz animações ao vivo para “Pictures from an exhibition”, do Ravel Mussorgsky, que durava 40 minutos, e para a ópera “Carmina Burana”, espectáculo que durou 70 minutos e que exigiu que eu tivesse muitas e boas ideias. Optei inclusivamente por escrever um guião e pratiquei durante longas semanas.

CV: Ao criar uma animação escolhe previamente a música ou a inspiração surge sem banda sonora, que adiciona posteriormente?

FC: Essa é uma pergunta interessante, pois enquanto nos filmes é no processo de edição que selecciono a música para adicionar, nas performances ao vivo primeiro escolho a música e é em função dela que componho um pequeno guião com as principais ideias que penso desenvolver em cada passagem.

CV: Habitualmente concebe primeiro um guião que estrutura o seu trabalho ou vai ajustando a história à inspiração do desenho?

FC: O meu trabalho no estúdio tende a ser um pouco solitário, porque ao contrário de um filme de animação convencional, produzido por uma vasta equipa, contexto em que um guião detalhado se torna indispensável para a sua concretização. No entanto, ao trabalhar praticamente sozinho tenho mais liberdade para a improvisar. Posso ter uma bela imagem de que gosto mas se sentir que ela não me permite ir na direcção pretendida, posso alterar várias vezes não só essa imagem como o rumo da história.

CV: Ao usar essencialmente formas e símbolos em vez de palavras é sua intenção falar através da linguagem universal do cinema?

FC: Sim, pelo menos tenho essa esperança. Na animação com areia as ideias devem ser muito boas, sólidas e universais para serem compreendidas com a mesma facilidade por um japonês, um russo, um italiano ou um português. É muito importante que todos possam de igual modo compreender a história. Nunca trabalhei com texto nos meus filmes, portanto nunca existiu a necessidade de tradução. Pensemos em histórias infantis: quanto mais texto existir, menos animação é necessária para se compreender a narrativa e mais fácil se torna transmitir a mensagem. Na ausência de palavra tem de haver mais animação e muito mais movimento para se explicar uma história a uma criança apenas através de imagens.

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CV: Há vários anos que vem fazendo espectáculos ao vivo de animação com areia. Nesta fase da vida é mais recompensador actuar perante uma plateia ou fazer animações em estúdio?

FC: Gosto de ambas, mas quando faço um filme trabalho um pouco como um pintor: estou sozinho com a minha criação e depois leva muito tempo até ter alguma reacção ao meu trabalho. Por outro lado, é fantástico quando actuo ao vivo e tenho o reconhecimento directo do público, que pode expressar ali mesmo o seu agrado e por vezes são plateias com mais de 4000 pessoas. Lembro-me de uma ocasião curiosa há alguns anos num festival na ilha da Madeira, no qual Gerard Depardieu era um dos membros do Júri e se mostrou agradado pela minha actuação). Normalmente nas performances fico perto da minha área de trabalho, do ecrã, e apenas se vêem as mãos, mas dessa vez o ecrã era tão grande que ficava dentro dele, sentindo-me quase como uma personagem do que estava a desenhar.

CV: Teve alguma ideia em particular para a actuação de hoje, por ser em Lisboa e se tratar de um festival de animação?

FC: São dois actos muito especiais mas não específicos para a Monstra. O primeiro é uma animação que dura cerca de 10 minutos a que chamei Cinema e que me surgiu quando passei três semanas em Los Angeles. Essencialmente uso um conjunto figuras icónicas de filmes americanos, como o rato Mickey ou o Darth Vader, e a música de Nino Rota, sendo que ainda tentei incorporar personagens europeias mas concluí que não eram tão típicas e fáceis de desenhar rapidamente. O segundo, mais curto, é em honra da revolução de 1848 pela independência húngara face ao império dos Habsburgos, que se celebra a 15 de Março, no qual se poderá ouvir um trecho d’As Danças Húngaras de Brahms.

CV: Que artistas de animação considera como influências e recomendaria que conhecêssemos?

FC: Poderia dizer muitos nomes mas não posso deixar de mencionar o húngaro Otto Foky, que foi o meu mentor e a minha maior influência na animação de marionetas. Recomendaria também o russo Yuriy Norshteyn, que criou um estilo muito interessante em animação papercut, ou Jan Svankmajer, autor da versão checa de Alice no País das Maravilhas. O trabalho destes e de outros artistas acaba por estar reflectido em certa medida nos meus filmes e inspirou algumas das minhas ideias.

CV: É muito positivo que este ano a Monstra tenha decidido dedicar grande parte da programação à animação húngara, porque apesar do Ferenc ser mundialmente conhecido provavelmente muitos outros artistas não são tão familiares para o grande público. Na Hungria o género de animação tem o devido reconhecimento?

FC: O festival decidiu homenagear a Hungria porque este ano se comemoram os 100 anos do primeiro filme de animação húngaro [realizado em 1914 por István Kató]. Sim, há reconhecimento da animação no meu país mas principalmente dos cartoons, da animação mais convencional. Quando o Pannónia estava no seu auge produzia bastantes filmes por ano e existiam muitos departamentos mais ou menos independentes, sendo que eu estava no de marionetas. Em 1995 criei o meu próprio estúdio, tal como o fizeram outros colegas da minha geração, porque o Pannónia entrou em declínio financeiro, mas muitos decidiram emigrar, como foi o caso de John Halas, que se mudou para Londres onde fez muitos filmes de propaganda durante a Segunda Guerra Mundial. Actualmente os artistas de animação, bem como realizadores de outro tipo de filmes, recorrem sobretudo a concursos de financiamento estatal para o cinema.

CV: Para além do já referido Ab Ovo, que projectos destacaria da sua vasta filmografia e quais os próximos passos?

FC: Destacaria Touch, filme que realizei há três anos dedicado à memória do meu pai que faleceu em 1992, mas também Ashes, dedicado à minha mãe que morreu muito cedo e que foi premiado com o Urso de Ouro no festival de Berlim. Actualmente estou a realizar um novo filme de animação porque se comemora o aniversário de uma grande revolução na Hungria que teve lugar à 500 anos. Será sobre o general George Dozsa e terá cerca de 10 min, penso terminá-lo no final de Maio. Todo o processo é muito difícil e ainda me faltam pelo menos mais 2000 frames (risos). Mas valorizo muito o facto de não utilizar o computador para a criação, apenas no registo das imagens, pois tudo o resto é absolutamente feito à mão.

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