«O Menino e o Mundo», de Alê Abreu, em primeiro plano

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A propósito da 13ª edição da Monstra – Festival de Cinema de Animação de Lisboa, o realizador Alê Abreu, veio ao Cinema São Jorge para a estreia de O Menino e o Mundo e conversou com o público no final. O Menino e o Mundo, conta-nos a história de um menino que parte à procura do seu pai e descobre um mundo fantástico. Nesta viagem atravessa diferentes contextos sociais mas também viaja no tempo. Tudo começa com uma pequena casa onde vive com os seus pais numa pequena fazenda, onde plantam para consumo próprio, levando uma vida simples, auto-sustentada e feliz. Tudo muda quando o seu pai vai trabalhar  para a cidade, motivado por uma sociedade que evoluiu ao som do desenvolvimento económico, do trabalho assalariado e da indústria que parece sugar a energia e criatividade humana, explorando-a. Como numa linha de produção, vamos avançando na cronologia: do agricultor  aos trabalhadores das plantações de algodão (associados ao tempo da escravatura, como no exemplo do capataz que vai despedindo os trabalhadores mais debilitados), até à indústria, onde as pessoas são apenas autómatos, peças de uma produção em linha. Através de uma animação inovadora na sua simplicidade, este menino chega-nos com uma inocência e pureza, longe dos bonecos hiper realistas e cheios de botox das animações tridimensionais.

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Alê Abreu conta-nos que este filme surgiu enquanto fazia pesquisa sobre o canto latino, abordando o contexto da América Latina, e de países que foram colónias, que viveram ditaduras e desembocaram na era da globalização. O documentário queria transmitir essa atmosfera, essa infância oprimida que evoluiu para o mundo actual. Nessa representação o menino surgiu várias vezes. Este desenho muito simples captava em si uma essência muito forte, havia nele uma urgência de deixar esse documentário.

Foi assim que Alê o transformou na voz principal dessa mensagem, realizando uma ficção que segue o menino pelo canto latino. De tal forma tomou os corações da equipa que foi inevitável darem-lhe um nome: Cuca.

Quando o menino chega à cidade, as cores vivas brilhantes que se destacam do branco tornam-se sépia, escuras, e os nossos olhos ficam perdidos com tanta informação. A cidade parece uma amontoado de lixo que nos soterra, longe da simplicidade da fazenda e da infância. O menino é bombardeado com propaganda ao consumismo, publicidade e imagens de futebol, símbolos de consumo rápido que proporcionam experiências de alienação.

As cores livres que se sobrepõe ao papel branco e dão lugar ao elemento mundano. O branco transmite um lado espiritual livre, de onde saímos e para onde vamos. As imagens do mundo real foram feitas com colagens e imagens reais, recolhidas na pesquisa do canto latino. Imagens de filmes como ABC da Greve e Ecologia, de Leon Hirszman, imprimem ao filme uma maior tensão e realismo fazendo assim uma homenagem aos filmes que o inspiraram a seguir aquele rumo. Para além disso, a equipa considerou que só através de imagens reais se poderia superar a inocência subjacente à animação e representar com verdade estas tragédias.

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Durante a pesquisa do canto latino Alê, foi até Chiapas falar com Zapatistas, eles usam uma bandana que simboliza o facto de não terem voz, subentenda-se perante o mundo. O Subcomandante Marcos tem uma citação famosa que diz: “Somos um exercito de sonhadores e, por isso, somos invencíveis”, esta realidade serviu de inspiração para o Menino não ter boca.

Os poucos diálogos que o filme tem não são para entender, foram feitos em português mas ao contrário, mas são apenas sons. Mais do que sobre palavras este filme vive da força das imagens.

No mundo da animação Alê cita René Laloux e La planète sauvage como uma das suas maiores influências, mas também outros como o génio Tarkovsky.

O realizador conta que mudou o fim do filme: a ideia inicial acabava de um modo negativo, sem nenhuma nota de esperança, mas rapidamente se aperceberam que tinha de haver uma luz no fim do túnel. O filme foi um processo tão mágico como doloroso, principalmente quando tiveram de abandonar este projecto e deixar este menino tão profundamente excluído por tudo e todos.

Este filme preenche muitos vazios, e se preenche para mim, então também preencher o de outras pessoas. O menino tentava dizer-me coisas, e eu deixei-me ir. Para mim o artista é o tronco, nem é as raízes por onde tudo começa, nem as flores onde tudo desemboca, mas sim um receptáculo. É preciso ouvir a obra e ter humildade em ouvir essa voz .

O menino segue o pai sempre em função de sons que vai ouvindo, a música e a sonoplastia alimenta este filme.

A banda sonora é um corpo só, não começa nem acaba para pontuar certos momentos, ela tem uma existência em todo o filme. A colaboração com Naná Vasconcelos (vencedor de vários Grammys), com os Barbatuques grupo brasileiro de percussão corporal (fazer música a partir do  próprio corpo, com palmas, batidas no peito, estalos com os dedos e a boca…) e GEM – Grupo Experimental de Música foram peças essenciais para banda sonora.

Outra colaboração especial foi a de Emicida, rapper brasileiro, que compôs uma música de intervenção, que ouvimos durante a subida à favela. Emicida sentiu-se muito ligado à história deste menino, tendo contado posteriormente que se revia no seu percurso de vida. Também ele tinha sido um menino abandonado pelo pai.

Estes encontros inesperados acresceram uma dimensão que ultrapassou o próprio filme, mas que englobou todos o que dele fizeram parte.

Apesar dos filmes de género de animação estarem rotulados a serem dirigidos  ao público infantil, este filme não é para crianças. Mas… as crianças estão neste mundo, por isso este também é um filme para crianças. Esta história está a acontecer e é real. O menino tem uma alma livre, e ele tentou preservá-la, mas o mundo não permite essa liberdade. É difícil viver neste mundo! E as crianças vêem-no assim…

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