«O Meu Pé de Laranja Lima», o Mundo segundo Zezé…

O Meu Pé de Laranja Lima

Não é fácil atingir o objetivo a que este filme se propõe, assim como não é fácil mostrar numa tela o espantoso universo que é a imaginação de uma criança. O Meu Pé de Laranja Lima é daqueles livros infantis obrigatórios, mas não é uma obra que deva ser lida por crianças. Deve ser visitada, principalmente, por adultos, de tempos a tempos, pois são eles que devem dar-se conta do maravilhoso mundo que era o seu pequeno mundo de pequenos. Esta capacidade de construção de sonho, da sua materialização, é algo que perdemos ao longo do tempo, à medida que atulhamos as células nervosas com coisas práticas, conhecimentos empíricos que, pela sua retidão, são essencialmente desprovidos de magia.

A trabalhosa tarefa de construção da história imaginada por José Mauro de Vasconcelos e da sua transladação para o cinema ficou a cargo de Marcos Bernstein que capta, de uma forma despreconceituosa, os grandes espaços do estado de Minas Gerais, nas profundezas do Brasil, o verde imenso e a paisagem a perder de vista provocam um sentimento de solidão, uma solidão tranquila, de afastamento espacial, contrastando com a paisagem humana daquela pequena população caipira, escura e suja.

O pequeno Zezé é a personagem principal, pequeno e irrequieto, vive na pobreza, o pai desempregado e bêbado e a mãe fora de casa o dia todo para trabalhar na grande cidade. O mundo de Zezé é pequeno e feio e, por isso, procura escapar, fazendo uso da sua imaginação infantil. Depressa nos apercebemos da capacidade invulgar do rapaz de criar ambientes e transformar o que está à sua volta. A sua maneira de ser é reguila, um pouco rebelde, mas incrivelmente lúcido para uma criança, abordando de maneira natural temas como a pobreza e a morte. O seu aborrecimento quase permanente leva-o a praticar travessuras que levam a tareias quase diárias, sendo que a sua família o trata por “diabo”.

MeuPeLaranjaLima

O seu melhor amigo é o pequeno pé de laranja lima, o minguinho, que cresce no seu quintal. Esta árvore conta-lhe histórias e leva-o a andar pelos prados montado num grande cavalo branco. Zezé trava amizade com Manuel, o Portuga (José de Abreu), dono de uma grande casa na pequena povoação, um carro clássico preto, mágico, conhecedor do mundo e atormentado pelo passado. Vê no rapaz uma forma de preencher um vazio que o assola, o garoto é como um filho para ele e Portuga repara no mundo de beleza extraordinária em que o garoto vive, incentivando-o a contar as suas histórias.

Quem se deslocar a uma sala de cinema para ver esta pelicula deve reparar no comboio, um elemento de extrema importância simbólica, que acaba por dar sentido à história. Ele nunca para, traz consigo desgraça, não deixando de trazer esperança (principalmente a Zezé que corre junto ao gigante de ferro), penetra aquela pequena população vindo de outros lugares: é o mundo que passa e não fica.

Talvez por partilhar-mos a língua, os filmes brasileiros sempre tocaram profundamente os peitos lusitanos, talvez pela longitude, aproximada por um passado em comum e uma ligação de sangue, o Brasil é, também, um pouco de Portugal. Todos nós somos o Portuga do filme e do livro, a imagem triste de quem já carregou com toneladas de tormentas às costas, mas que sempre sorri, olhando para o futuro.

Para além de apreciador de filmes sou um grande amante da literatura em todas as suas formas, principalmente daqueles livros que nos transportam para um mundo idealizado, subjetivo. Isto aconteceu-me ao ler Meu Pé de Laranja Lima. O que acontece é que o espaço idealizado por mim ao ler aquelas páginas não correspondem ao que vi no ecrã de cinema, não sendo isto um defeito do filme. Esta obra é apenas uma interpretação e aconselho a todos a lerem o livro, antes ou depois de verem o filme e, retirarem a vossa interpretação. Criem o vosso mundo com aquelas páginas pintadas a tinta preta.

Classificação (0-10): 7

O Meu Pé de Laranja Lima | 2012 | 99 mins | Realização: Marcos Bernstein | Argumento:  Marcos Bernstein e Melanie Dimantas | Elenco principal: João Guilherme Ávila, José de Abreu e Caco Ciocler

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