«Transcendence»: a inteligência artificial ganha alma

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Transcendence, marca a transição de Wally Pfister do papel de director de fotografia (aliado de Christopher Nolan na trilogia de Batman, em Inception e Memento) para realizador. O filme conta a tentativa do Dr. Will Caster na criação de uma máquina que transcende os limites actuais da inteligência artificial, bem como as capacidades do cérebro humano, originando uma ferramenta tão poderosa como perturbadora. A cena inicial traz um prenúncio: gotas de água que caem como que num lamentar de uma aurora que trouxe notícias… más notícias. O cenário que vemos assemelha-se a uma atmosfera pós-apocalíptica: ruas destruídas, pessoas em notória carência que pedem comida e militares na rua demonstrando que uma batalha foi travada.

O filme recua cinco anos para nos contar o início da história, Dr. Will Caster (Johnny Depp) e sua esposa Evelyn (Rebecca Hallpreparam-se para dar uma conferência. A conversa íntima entre os dois apresentam-nos as personagens. Ele um investigador apaixonado pela ciência, ávido por desvendar mistérios e com pouca paciência para protocolos. Ela mais pragmática, preocupada com o impacto que a ciência pode ter e com a ambição de poder mudar o mundo. Apaixonados e devotos ao seu trabalho, vivem divididos entre a vontade de serem livres e independentes de tanta tecnologia (construindo um recanto no jardim sem rede), mas paralelamente trabalham numa máquina senciente de nome PINN (Physically Independent Neural Network) que acaba por lhes controlar o destino. Numa área da ciência em que as preocupações éticas são enormes, RIFT (Revolutionary Independence From Technology) uma organização de ex-alunos do Dr. Caster, assume a forma de todos os clichés que ditam que o progresso da tecnologia só servirá para aniquilar a espécie humana, lutando para travar esta investigação a qualquer preço.

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Em facções opostas encontram-se a humanidade e a tecnologia, num duelo retratado diversas vezes no cinema. No início os robôs eram retratados como máquinas que executavam apenas o que estava programado pelos humanos (robô do Metropolis, exterminador T-800). Mais tarde em 2001 Odisseia no Espaço foi introduzido o computador HAL-9000 com inteligência artificial auto-consciente. Em todos estes filmes o denominador comum era o temor pelas máquinas pois elas significam a destruição dos humanos.  O passo seguinte, numa perspectiva mais positiva, determinaria que esta inteligência poderia responder às nossas expectativas emocionais, pondo em causa a existência de inteligência artificial verdadeira. Criou-se um robô capaz de agir e pensar exactamente como um ser humano, como David em IA, criado para ser o que o Pinóquio nunca conseguiu, David tinha sentimentos e era um menino de verdade, ou não. Mais do que ter um software que lhes permite emular emoções humanas, os robôs conseguem desenvolver essas capacidades, tal como um ser humano é capaz de se adaptar a novas situações. Robô & Frank demonstra esta adaptação e a evolução para um espírito crítico, sentimentos de amizade e lealdade, ainda que para isso seja preciso ter um raciocínio ilógico que se contradiz e é capaz de mentir.  Depois de robôs e humanos terem uma relação cada vez mais próxima, porque não começarem a amar-se? Her apresenta Samantha, um sistema operativo que faz as delicias de qualquer utilizador e que apesar de não ter um corpo material associado à sua inteligência artificial, é o exemplo que mais perto chegou dos corações humanos.

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Transcendence quebra a barreira entre robôs e humanos e cria algo inédito. Se o que falta ao avanço tecnológico é a componente humana, porque não fazer upload de uma consciência e criar algo com maior potencialidade do que a inteligência de todos os cérebros que já existiram? Algo que permita avanços na ciência com impacto no tratamento do cancro, que resolva problemas ambientais, e que salve vidas. Claro que a pergunta cliché também está lá: Mas isso não é querer ser Deus? O ser humano neste último século construiu avanços tecnológicos inimagináveis, a um ritmo exponencial, tem manipulado e destruído recursos como nunca antes, e isto ainda é uma pergunta? O problema é que talvez a tecnologia avance mas a nossa espécie ainda continua agarrada às saias da religião e do pensamento clássico. O filme lança o debate e qual das frentes é que está verdadeiramente “unplugged” (como na tatuagem que vemos cair do pulso de Caster) fica ao cargo do espectador desvendar até ao ultimo momento.

A sinopse prometia um filme mais arrojado e a quebrar barreiras mas a sua concretização tropeça constantemente em lugares comuns. O argumentista estreante Jack Paglen foca demasiado na velha batalha do bem contra o mal, reduzindo demasiado o espectro destas personagens, e nem assim provocando grandes emoções. 

O elenco poderoso sustenta o filme, sobretudo Rebecca Hall, que representa a personagem mais interessante, numa bipolaridade entre a cientista que perdeu a razão por amor e que segue cegamente as instruções do computador (tornando-se ela a instrumentalizada). Paul Bettany, narrador e elemento neutro da história, parece mais um dos robôs, enquanto Morgan Freeman como sempre competente, surge mais uma vez num papel da voz da razão, e Depp, que numa luta de vozes virtuais perderia com Johansson, volta a um registo sério mas inócuo.

O melhor é exactamente aquilo em que o realizador tem experiência: a fotografia. O duelo visual é bem trabalho em contrastes de imagens que evidenciam o artificial das máquinas como os fios de cabo, os super computadores que ocupam salas enormes, a linguagem binária e as equações – linguagem estranha há maioria dos comuns mortais; versus a humanidade, sempre integrada na natureza, no verde das plantas, no jardim refúgio do casal. As cenas lentas das gotas de água a cair e os planos próximos do casal Caster são os elementos que nos fazem torcer para que os humanos vençam.

Classificação (0-10): 8

Transcendence | 2014 | 119 mins | Realização: Wally Pfister | Argumento: Jack Paglen Elenco principal:  Johnny DeppRebecca HallMorgan Freeman, Paul Bettany, Cillian Murphy

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2 responses to “«Transcendence»: a inteligência artificial ganha alma

  1. Uma premissa suculenta e que o texto de Paglen é capaz de honrar com o levantamento de questões estimulantes, e que não são nada fantasiosas no ano de 2014. Este thriller de ficção científica mais de 100 minutos, eu gostei. Transcendence é um filme estranho e muito futurista que eleva a curto prazo um futuro muito sombrio para toda a humanidade. A coisa interessante sobre este filme é o debate e o dilema moral que surge quando se discute os limites da ciência e tecnologia. Transcendênce é o primeiro filme que fez Wally Pfister, diretor de fotografia de quase todos os filmes de Christopher Nolan.

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