Queer Lisboa 18: «Flores Raras», melancolia comum

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Flores Raras é a história não muito complexa e, no entanto, pouco convencional do relacionamento amoroso entre Elizabeth Bishop, poeta vencedora do prémio Pulitzer e do National Book Award, e Lota de Macedo Soares, a arquiteta brasileira. Bishop (Miranda Otto) é uma mulher claramente insegura, o que se torna claro nos primeiros momentos do filme em que a vemos sentada junto a um lago em Central Park a discutir desapaixonadamente um dos seus poemas com Robert Lowel, também ele poeta. O registo pessimista, introvertido e imensamente contido num comportamento defensivo é monotónico e acompanha a personagem ao longo da maioria da ação.

Elizabeth abandona Nova Iorque para fazer uma viagem ao Brasil e visitar Mary, uma velha amiga dos tempos de faculdade que se mudara para este país tropical. A indefinição pessoal que Elizabeth sente, a falta de confiança em si própria e em relação às suas criações, que até aquele momento era apenas uma suposição baseada no estudo superficial de uma personagem melancólica, torna-se óbvia quando esta hesita antes de colocar “poeta” como profissão num documento preenchido no aeroporto. O ambiente descontraído deste novo país tropical contrasta radicalmente com a maneira de agir contida de Elizabeth. A escritora vai habitar a casa de Lota (Glória Pires), uma arquiteta brasileira, que vive num relacionamento aberto com Mary (Tracy Middendorf). Os seus modos excêntricos e firmes chocam com a personalidade de Elizabeth, numa relação que se torna um pouco amarga no início. É através de uma breve conversa entre Lota e Mary que tomamos conhecimento da orientação sexual de Elizabeth, bem como de algumas informações intrigantes relativas ao seu passado. À medida que o tempo passa e as mulheres enfrentam algumas atribulações que fazem com que a estadia da poeta no Brasil se prolongue, esta e Lota aproximam-se cada vez mais dando início a um relacionamento que é a única linha de ação da obra.

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Muito embora a ação seja maioritariamente linear, é-nos dado o contexto social e financeiro das personagens, bem como o enquadramento histórico da antiga colónia portuguesa. Ficamos a perceber que Lota se move entre os círculos da alta sociedade brasileira mantendo sempre uma mente aberta e livre de convenções. Somos transportados para a época do golpe militar e da imposição do regime no Brasil, acontecimento em que Lota teve um papel fundamental como a arquiteta responsável pela edificação do Parque do Flamengo no Rio de Janeiro, obra considerada elitista. A personalidade da arquiteta parece oscilar entre dois pólos muito distintos, variando de artista sonhadora e idealista para um pragmatismo inquebrável e uma firmeza rara para a tomada de decisões.

Flores Raras seria um filme deveras monótono não fosse a história centrar-se numa relação homossexual. Todavia, não foi feito para chocar, nem mostra uma representação extremamente plástica e sem filtros das relações homossexuais. É uma obra sincera, tenta aproximar-se dos romances comuns que vemos tantas vezes no cinema independente à volta do mundo. No entanto, as duas horas do filme não foram suficientes para conhecer realmente as personagens para além de um contorno geral das suas ambições e crenças. Não criamos qualquer apego por qualquer personagem. Lota seria talvez a personagem sobre a qual gostaríamos de saber mais mas, infelizmente, Bruno Barreto não soube explorar esta personagem.

Mantém-se uma linha contínua de melancolia, sem exageros, com medo de cair no melodramático. No final, acaba por ser a monotonia que torna o filme melodramático e retira qualidade a uma história real que deveria ter sido relatada de uma forma mais realista.

Classificação (0-10): 5

Flores Raras | 2014 | 118 mins | Realização:  Bruno Barreto | Argumento: Matthew Chapman e Julie Sayre | Elenco principal: Glória Pires, Miranda Otto e Tracy Middendorf

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