«Lixo», o cognome da corrupção

lixo

Vibrante, aguerrido e colorido: assim é Lixo de Stephen Daldry, baseado no romance de Andy Mulligan adaptado ao cinema e à realidade brasileira por Richard Curtis e Felipe Braga. A história narra a aventura de três jovens que vivem num Rio de Janeiro impróprio para turistas e para os próprios cariocas. Raphael e Gardo vivem no lixão, um dos maiores aterros controlados do mundo, situado no Jardim Gramacho, num bairro periférico do Rio e fazem o que todos os morados do lixão fazem: trocam lixo por dinheiro ao catar material reciclável. Casualmente encontram uma carteira com muito dinheiro que é procurada pela polícia e, ao não cooperarem, despoletam uma jornada de descoberta da verdade e luta por uma justiça que apodrece mais a cada membro do governo e policia corrupto que tresanda mais que o próprio lixão. A vida neste contexto já foi abordada em documentários brasileiros como o de Vik Muniz, Lixo Extraordinário (2010), ou Estamira (2004), de Marcos Prado, e tal como Estamira dizia o “verdadeiro lixo são os valores falidos em que vive a sociedade”. Mas se estes espelhavam a personalidade do cinema brasileiro, Lixo é uma produção tipicamente americana, com todos os altos e baixos que a jornada do herói deve ter e com dois actores sonantes para fazer ecoar o nome de Hollywood: Rooney Mara e Martin Sheen, que interpretam dois missionários, ele um padre e ela uma voluntária que “prega inglês aos infiéis”, metáfora petulante da supremacia do norte em relação ao sul americano.

O melhor do filme é a sua “costela” brasileira. Por um lado, o bom casting dos actores adultos: Wagner Moura (que nos lembra o lado incorruptível de Tropa de Elite), que aqui representa José Angelo, o dono da carteira cujo papel é tão curto como importante no desvendar da história, e Selton Mello, que representa o polícia com fel nas veias e que protagoniza as cenas mais violentas. Por outro lado, a cereja no topo do bolo é a quadrilha Raphael (Rickson Tevis) Gardo (Eduardo Luis) e Rato (Gabriel Weinstein), três jovens que nunca tinham representado mas que são brilhantes ao tomar a cidade na sua mão e dominá-la, criando as cenas de acção mais alucinantes. Eles movimentam-se por cima e por debaixo de terra, correm pelo chão, trepam paredes e voam entre prédios, fluem no meio de todo o caos e violência, a sobrevivência é o seu nome do meio e o director de fotografia Adriano Goldman soube tirar partido disso. Tentando dar um toque de documentário, os rapazes aparecem a falar directamente para a câmara, num testemunho longe de parecer real e a mistura entre o português e inglês só acentua essa estranheza, que piora quando se riem e se quebra a tensão construída até então.

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A estética colorida, os ambientes exóticos e o ritmo rápido são inevitavelmente comparados a uma versão americana de Quem Quer ser Bilionário? de Danny Boyle, apesar de Lixo perder face à lufada de ar fresco que o argumento do primeiro trazia. As diferentes linhas temporais que constituem esta história são montadas de um modo dinâmico, conferindo um bom ritmo e suspense ao filme. Os flashbacks progressivos desvendam de onde veio a carteira, que segredos guarda e as várias narrativas paralelas (entre os rapazes, a história passada de José Angelo e o polícia) são contadas através de imagens em raccords, quase como memórias ancoradas aos sítios em que Raphael está. Exemplo disto é a cena em que ele vai até à estação para abrir o cacifo onde vemos todas as personagens a viver aquele momento.

A crítica social é feita de mansinho, para não chocar as sensíveis alminhas americanas. O tema da corrupção é ainda um assunto do dia no Brasil e apesar de ser um dos maiores entraves ao progresso em vários países ditos do terceiro mundo já foi tão banalizado no cinema que perdeu o devido impacto e passa mais por pormenor de argumento do que por problema. O uso do próprio lixão é aqui um mero adereço de cenário, que preenche o visual pobre e exótico, sem sequer questionar que sítio é aquele, nem pela via da informação, nem pela crítica política e social. Hollywood no seu melhor: mastiga e deita fora em prol de um happy ending. Outro tema um pouco mais polémico, e por isso passado nas entrelinhas das anotações dos desvios de dinheiro, é o montante gasto no futebol, em particular nos estádios, que a propósito do último Campeonato do Mundo foi motivo de manifestações fervorosas e que dá 10-0 à contestação contida neste filme.

Classificação (0-10): 7

Lixo | 2014 | 115 mins | Realização: Stephen Daldry | Argumento: Felipe Braga e Richard Curtis | Elenco principal: Rooney Mara, Martin Sheen, Wagner Moura e Nelson Xavier 

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