«Relatos Selvagens»

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Relatos Selvagens, realizado por Damian Szifron e produzido por Pedro e Agustin Almodovar, é uma das melhores comédias realizadas em 2014. O filme é composto por seis histórias que têm em comum o que o próprio título sugere: explosões selvagens de pessoas comuns, que em situações comuns são levadas ao extremo. Os momentos dos créditos iniciais em que vemos animais selvagens no seu habitat natural não é mera coincidência… Nas condições certas todos viramos feras na selva urbana. Na sua primeira longa metragem, Damian Szifron explora situações banais do quotidiano, e ainda que retrate a sociedade argentina, sobretudo uma população de classe média-alta, o argumento estabelece uma relação muito próxima com o espectador que se revê em muitas das situações. Através desta comédia dramática frenática, Szifron usa cada história para colocar o dedo em várias feridas, seja pela desonestidade e corrupção, seja pela falta de tolerância e civismo, seja por traições e excesso de ego…

Numa toada sentimental criticando as atrocidades cometidas entre elementos da espécie humana, o filme começa e acaba com segmentos sobre relações emocionais. Em Pasternak, durante um voo, os passageiros de um avião casualmente descobrem que todos têm um elemento em comum: conhecerem o chato, estranho, pouco talentoso e lento Pasternak, mas esta reunião não é um acaso… será um voo rasante que inicia uma descida infernal ao riso compulsivo. Em Til Death Do Us Part somos convidados para o casamento de Romina e Ariel, mas tudo muda quando a noiva descobre que está a ser traída e que o seu marido convidou a amante para a boda. A partir desse momento entramos novamente numa espiral descendente até à loucura do ciúme e do que seria a pior vingança possível para este traidor.

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Os temas sociais não faltam: a corrupção ou falta de legitimidade de quem se candidata a cargos públicos está patente em The Rats, em estilo film noir, onde a vingança é um prato que se serve quente e apetitoso. A injustiça provocada pelas desigualdades sociais e económicas são abordados em The Bill, onde uma família rica tenta subornar o seu empregado para assumir um crime que o seu filho cometeu. O episódio origina uma série de negociações entre o advogado, o patriarca, o delegado da polícia e o empregado, onde a desonestidade é tal que a luta de tão apertada dá um nó cego. Outro exemplo de paródia à familia de classe média-alta trabalhadora é Bombita, onde a raiva pelos esquemas privados de ganhar dinheiro com o parqueamento automóvel é levada ao limite. Assistimos ao drama de um pai que vai comprar um bolo de aniversário a um preço exorbitante, respondendo “este também é importado?”, e ao sair da loja percebe que o seu carro foi rebocado sem que a via esteja devidamente sinalizada. Exemplos destes acontecem todos os dias e por vezes só apetece fazer o mesmo que este engenheiro responsável pela implosão de prédios fez: em vez de implodir o problema deixou-o explodir.

Em Road to Hell as diferenças económicas e culturais são retratadas pela típica troca de insultos entre dois condutores, o do Audi que quer ultrapassar, e o do chaço com pinta de rally que lhe barra o caminho. Lembrando as cenas de acção vibrantes de Quentin Tarantino, o humor e a violência são complementados de um modo perfeito, fazendo com que as diferenças dos condutores desapareçam e que venha à tona o instinto animal (sem esquecer a cena de defecação mais atónita que o cinema já presenciou). A banda sonora a cargo Gustavo Santaolalla, vencedor de vários Oscars, é escolhida a dedo e várias vezes enfatiza a loucura, falta de discernimento e sanidade convencional que estas personagens já perderam, contribuindo para momentos hilariantes. Um exemplo memorável é a cena da luta no carro em Road to Hell, onde durante socos o rádio liga-se e ouve-se hits românticos dos anos 80. O melhor do filme é que o entretenimento, a crítica sagaz e inteligente vêem acompanhados de boas interpretações e uma cinematografia refrescante, com o uso de ângulos de câmara inovadores que tornam este filme um prazer visual.

Classificação (0-10): 9

Relatos Selvagens | 2014 | 122 mins | Realização e Argumento: Damian Szifron | Elenco principal: Liliana Ackerman, Luis Manuel Altamirano GarcíaAlejandro Angelini

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