Manoel de Oliveira: uma vida dedicada ao cinema

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“O meu destino é fazer cinema”

Hoje o cinema perde um talento incomensurável, mas com a perda vem também a lembrança, as memórias, a homenagem. Manoel de Oliveira o cineasta centenário, viveu uma vida cheia e deixa como legado mais de 40 filmes, entre longas e curtas-metragens. Senhor de uma linguagem própria, característica de um visionário, nem sempre agradou a todos os públicos mas também não era esse o seu objectivo. Manoel de Oliveira é um nome incontornável da arte e do cinema mundiais e por isso imortal através da sua obra.

Foi capa de revista pelo seu aspecto de galã e porte atlético, na sua juventude foram várias as suas conquistas no mundo do desporto. Trapezista, nadador, piloto de automóveis vencedor em 1937 do Circuito Internacional do Estoril, aviador acrobático e campeão de salto à vara. Mas ditava o destino que para lá do desporto teria um carreira brilhante na sétima arte. Para recordar as suas palavras, partilhamos uma conversa do realizador com Pedro Mexia em 2013.

PM: Há 40 anos o Manoel de Oliveira ainda só tinha dirigido duas longas de ficção. Embora isso não tenha acontecido por vontade própria, sente que ganhou alguma coisa em ter esperado tanto tempo?
MO: O meu cinema tem um lado histórico, incluindo o “Aniki-Bobó” [1942], que se tornou um filme extraordinariamente popular. Mal principiado e bem acabado. (risos).

PM: Mas depois teve aquele longo hiato de trinta anos até “O Passado e o Presente” [1971].
MO: Depois do “Aniki-Bobó” estive muito tempo parado, cerca de catorze anos, mas o cinema nunca esteve parado na minha cabeça.

PM: Aliás, os seus projectos não-realizados são tantos ou mais do que os terminados.
MO: São muitos. Mas eu digo que o meu cinema é de certo modo histórico porque o “Aniki-Bobó” representa um pouco a minha infância, e depois os filmes foram tomando um carácter mais histórico. A maior parte dos filmes era uma conversa histórica, evocavam factos históricos. E também me comecei a interessar pelo lado histórico do cinema. O cinema hoje é tido como movimento. Mas o movimento não existe.O que existe são as coisas a moverem-se no espaço. E isso ocupa tempo. Os Lumière, quando fizeram três vezes um filme sobre a saída dos operários das fábricas, quiseram fazer isso, imprimir movimento às figuras.

PM: Além dessa noção da história do cinema, também está presente nos seus filmes o passado histórico, culminando na ousadíssima ideia de filmar a História de Portugal através das suas derrotas, no “Non” [1990]. Porquê essa visão da História como história das derrotas?
MO: Camões põe o Velho do Restelo a dizer “cuidado com as vitórias, porque podem redundar em derrotas”. E isso tem acontecido. Tudo o que gente faz é um prenúncio de derrota. Houve um filósofo que disse que a História acabou, porque agora se escrevem romances. E num filme histórico ninguém conta o que se passou exactamente como se passou.

PM: A História é de certa forma uma ficção?
MO: É uma ficção, e quanto menos sérios formos mais nos ilude a convicção de que estamos a fazer um filme histórico. [Mudando de assunto, ou talvez não]. No “Guerra e Paz”, a certa altura, um nobre [o príncipe André] é ferido e sabe que vai morrer, e então pergunta “o que é a morte”? E depois olha em volta do quarto e encontra uma porta. E ele diz então: “Ah, é uma porta”. E eu acho muito feliz. É uma porta, que tem uma saída, mas desconhece-se a entrada.

PM: Além da História há outro tema central na sua obra, o dos amores frustrados. Porque é que na relação entre os homens e as mulheres também escolheu a frustração?
MO:
É a derrota. A vida é uma derrota. A gente vive na derrota. Nasce contra vontade, e não é senhor do seu destino.

PM: Falou na imagem da porta. Em alguns dos seus filmes, como “Acto da Primavera” [1963 ou “Benilde” [1975], interroga-se sobre o outro lado da porta. Pensa que há alguma coisa para lá da porta?
MO: 
É uma dúvida. São Paulo dizia que se Cristo não ressuscitou toda a nossa fé é vã. A própria religião é duvidosa. Ninguém pode garantir que para lá da porta há isto ou aquilo. São Paulo, que é um dos grandes, escreve “o que eu digo é fruto do pensamento, mas o pensamento erra”. Mesmo naquilo que parece concreto e plausível. [Esquece-se do que ia dizer]. A memória falha-me muitas vezes. Mas será que devemos confiar na nossa memória? (risos).

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PM: Um dos aspectos mais admiráveis do seu percurso é a persistência, a noção de que tinha um caminho a seguir, mesmo quando o público não o compreendia. E isso começou logo com a pateada a “Douro, Faina Fluvial” [1931], continuou com o facto de ter feito uma longa-metragem de tema religioso em pleno PREC [“Benilde”], e teve o apogeu com os ataques ao “Amor de Perdição” [1978], quando foi exibida a versão televisiva.
MO: 
Eu fui criado numa família católica. E um amigo do meu avô, que era padre, foi visitar outro padre que estava moribundo numa cama de hospital e disse-lhe: “Ah, mas tu estás com óptimo aspecto”. E ele respondeu-lhe: “Eu não me queixo do meu aspecto”. Isso responde a muita coisa. O aspecto não é concludente.

PM: Mas a convicção de que o seu cinema era diferente ajudou-o a não desmoralizar?
MO: 
Eu admiro os santos, muito mais do que os revolucionários.

PM: Porquê?
MO: 
Porque os santos jogam no abstracto.

PM: Ao longo da sua carreira discutiu-se muito a que publico é que se dirigia. Quem é o seu público?
MO: 
O meu público é aquele que vai ver os meus filmes. O cinema dá-nos uma visão da vida.E a vida é um mistério.

PM: Propõe aos seus espectadores que estejam abertos ao enigma?
MO: 
O mundo é complexo, incompreensível, talvez não tanto para quem tem uma crença nalguma coisa firme, mas para aqueles onde a dúvida prevalece. E o que proponho é a dúvida. A dúvida é uma maneira de ser.

PM: E mantém a fé no cinema? Ou também tem  dúvidas?
MO: 
É a mesma coisa que termos fé na honra. O que é a honra? O que é um gesto honroso?

(“O que é o cinema?”, pergunta Manoel de Oliveira, em Dezembro de 2012, aos 104 anos. É a dúvida a que tem tentado responder não apenas nos últimos 40 anos, mas nos últimos oitenta, desde o tempo do mudo, desde o começo do cinema)

in Expresso 11 de Dezembro de 2014

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