«Kurt Cobain: Montage of Heck», o homem por detrás do ícone

MontageOfHeck

Kurt Cobain é uma das figuras do meio cultural e artístico globalmente mais marcantes da década de 1990, com tal magnetismo que não faltam (inclusive no cinema) trabalhos que exploram a sua vida, em particular a ascensão enquanto músico e o trágico desaparecimento. Que pode então um novo documentário acrescentar a esta biografia volvidas mais de duas décadas sobre a sua morte? Bastante, é o que se conclui depois de assistir ao poderoso trabalho de Brett Morgen em Kurt Cobain: Montage of Heck.

Desde logo porque a base consiste em material raro e íntimo, documentos escritos, sonoros e visuais que na sua grande maioria foram registados pelo próprio Kurt Cobain. Daí que uma das chaves para a concretização do projecto tenha sido Courtney Love, que não só facultou o acesso como teve a iniciativa de se dirigir a Morgen com a ideia de transformar este conjunto de materiais em algo interessante. Não menos fundamental foi Frances Cobain, filha de Kurt e Courtney, que ao apoiar e colocar-se a bordo do projecto como produtora executiva funcionou como desbloqueador em diferentes níveis e vincou outra das características que mais distinguem este filme dos seus semelhantes: foi autorizado não apenas por Courtney e Frances mas também pelos pais, primeira namorada e companheiros de banda de Kurt.

Apenas com estes ingredientes já seria fácil imaginar um resultado final no mínimo pertinente, mas Montage of Heck atinge um patamar superior em virtude do trabalho de oito anos do realizador Brett Morgen, que criou uma experiência simultaneamente emocional e imersiva, mais do que estritamente biográfica. Tal como a colagem de gravações que deu origem ao título, esta viagem à vida de Cobain faz-se através de uma mescla de imagens de cadernos com textos e esquissos animados, de filmagens caseiras por vezes algo constrangedoras para o espectador, de sequências de animação que reconstituem episódios específicos, de momentos de palco e de bastidores dos Nirvana e, como não poderia deixar de ser, de uma componente sonora meticulosa e inequivocamente potente.

Todavia, para além da mestria técnica, perdura sobretudo o lado profundamente humano do filme, a verdade com que se constrói a descoberta do miúdo talentoso e irrequieto, do jovem rebelde e perturbado, do adulto genial e perdido que, aos 27 anos, decidiu tomar a vida pelas próprias mãos. Com o testemunho de poucos mas fundamentais intervenientes, visto que não haveria outros mais próximos de Kurt, esta faceta íntima nunca perde de vista a neutralidade, não embarcando em demasia nem pela martirização nem pelo lado mais problemático da sua vida. De Cobain exaltam-se virtudes, é certo, como a sua veia criativa, ambição e visão estratégica, e a sua busca pueril por reerguer ao seu redor uma família (tanto através da música como do casamento) que colmatasse a sua mágoa de infância, mas não fica por mostrar o lado negro, no qual despontam a incapacidade de se afastar de uma toxicodependência destrutiva e o ambiente “pesado” que criou para acolher a sua filha recém-nascida.

Montage of Heck torna-se assim o documentário definitivo sobre o homem por detrás do ícone, graças à mistura certeira entre o acesso a informação privilegiada e o consentimento e testemunho na primeira pessoa de quem melhor soube como foi partilhar o palco da vida com Kurt Cobain.

Classificação (0-10): 9

Kurt Cobain: Montage of Heck | 2015 | 145 mins | Realização e argumento: Brett Morgen

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