Problemas existenciais de «Força Maior»

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De Força Maior poderia esperar-se um filme de catástrofe natural, a avaliar pelas imagens disponíveis a priori. Ao invés disso, Ruben Ostlund atira-nos um drama psicológico tenso e profundo a partir das luxuosas férias que um casal e os seus dois filhos passam numa estância de esqui nos Alpes franceses. Tudo começa em tom harmonioso: a família feliz chega, tira fotografias em plena cumplicidade e demonstra laços sólidos tanto enquanto casal, no caso Tomas (Johannes Bah Kuhnke) e Ebba (Lisa Loven Kongsli), como enquanto pais.

Mas este é apenas o primeiro de cinco dias que compartimentam o filme e abalam existencialmente estas personagens. Ao segundo dia, enquanto almoça tranquilamente numa esplanada com vista para a montanha, a família apercebe-se de uma queda volumosa de neve, em crescendo. Inicialmente tudo parece controlado, mera rotina de manutenção das pistas de esqui, mas depressa a onda branca se aproxima e se instala o pânico. Perante a ameaça, Ebba agarra os filhos e protege-os, ao passo que Tomas agarra no seu telemóvel e precipita-se a fugir sozinho. Rapidamente se percebe que tudo não passou de um susto do qual sobra apenas uma névoa, e que o perigo real nunca existiu. Este episódio está, aliás, patente no trailer e na sinopse do filme, pelo que não se faz aqui qualquer revelação de maior.

Contudo, trata-se do ponto de absoluta viragem a partir do qual se desenvolve a narrativa e, como tal, revela-se brilhante. Tudo muda, mesmo que na aparência nada de assinável tenha acontecido. O que parece ter desabado é a própria família, numa espécie de avalanche interior com a qual a perda de confiança se instalou.

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Ostund é exímio na antecipação deste momento e na construção de uma linguagem visual que reflecte os valores e posições que pretende discutir. Filma a estância mergulhada na imensidão da montanha, através de planos abertos que reflectem a pequenez da construção humana face à grandiosidade da natureza. O mesmo acontece quando foca partes da infra-estrutura para a prática de esqui, acompanhada de sons maquinais e de pequenas detonações para libertar alguma neve, reforçando o conflito entre a dominação humana, racional e artificial sobre o inato, o selvagem, o natural. A espaços joga ainda com a opacidade do imenso branco da neve para fabricar o aparecimento e desaparecimento de personagens e pontua as cenas com passagens do terceiro movimento do “Verão” das “Quatro Estações” de Vivaldi. Tudo elementos que prometem o desastre, o fim do “bom tempo” e a chegada da “tempestade”, servida por interpretações à altura.

Nem o casulo de conforto e abundância atenua a derrocada de emoções que o singelo episódio gerou nesta família. Ebba personifica o hiper-instinto maternal, a interiorização de papéis conjugais e de género estereotipados reflectidos na expectativa de os ver concretizados em Tomas, que encarna o egotismo masculino, a imaturidade e o desejo de ser (ou parecer) um herói que transcende o pulsar humano. Assiste-se ao desabar e, por consequência, ao questionar de modelos de parentalidade, de masculinidade e de família, sobretudo numa fase em que o entusiasmo na relação do casal parece apagado, em contraste com o deslumbramento e liberdade (inclusive sexual) das relações das diferentes figuras com as quais se vão cruzando ao longo da estadia.

Arrojado na forma como explora o suspense, como revela vestígios de Kubrick ao captar a montanha e a estância quase como personagens, ou de Haneke na frieza do argumento e dos diálogos, aos quais soma apontamentos de humor negro contido e bem articulado com a violência emocional, Força Maior é um festim para os sentidos ao mesmo tempo que faz implodir no espectador questões existenciais sobre papéis de género, família e instinto.

Classificação (0-10): 8

Força Maior | 2014 | 120 mins | Realização e argumento: Ruben Östlund | Elenco principal: Johannes Kuhnke, Lisa Loven Kongsli e Clara Wettergren

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