«Timbuktu» um poema sobre a liberdade

tim poster

Grande, forte e gentil eram as características que Issan apontava ao seu falecido pai com orgulho. Assim é Timbuktu, do realizador e argumentista Abderrahmane Sissako, uma obra prima que nos toca pela força das imagens e pela história que contam. O título é o nome uma cidade do Mali ocupada por jihadistas, forçada a adaptar-se a regras aleatórias impostas diariamente por fanáticos que usam a religião para exercerem o seu poder (igualmente potenciado pelo armamento). Numa altura em que os jihadistas tentam colonizar inúmeras regiões fazendo uso da força militar e auto proclamando um estado islâmico, este filme é obrigatório, mostrando parte de como o processo se desenrola: ocupando terras, implementando “leis” e fazendo-as cumprir com a justiça de um tribunal mantido à lei das armas. Tudo começa com uma gazela que corre livre no deserto árido, sem restrições, sem condicionalismos…  Abruptamente somos estremecidos com o barulho de balas que lhe são dirigidas. Vemos uma carrinha com homens e bandeiras negras ao vento, bandeiras que hasteiam uma religião dogmática e inflexível, destinada a impor limites estabelecidos pelos seus homens, que pouco tem a ver com um Deus que, tal como lembra o líder religioso da cidade, significa perdão e tolerância. Jihadistas andam pelas ruas com megafones a espalhar as mais recentes proibições: fumar, andar com os pés e mãos destapados, ouvir ou tocar música. As pontuais formas de insurgência são combatidas pela prisão, julgamento e castigos físicos executados em público. O realizador mostra a crueza desta realidade imposta a pessoas que antes eram livres de se expressar de uma forma muito naturalista usando planos médios ou grande planos sempre lembrando que não estamos perante uma dor pessoal, mas uma injustiça que acontece e volta a acontecer independente do tempo, do país, do porquê. timbuktu Para se manter longe desta opressão, um criador de gado (Ibrahim Ahmed) vive com a sua família à margem da cidade, onde as mulheres não têm de se cobrir com panos, onde se pode tocar e cantar música, sorrir e partilhar o afecto entre pessoas. Mas a morte de uma das suas vacas vai fazer com o destino desta família sofra um revés. No meio da cidade existe uma mulher que se veste de um modo excêntrico, carregando um galo como melhor amigo, filmada de cima ou com um grande plano das suas vestes longas e retratada quase como figura mítica caída ao mundo dos humanos. Ela fala de outros tempos, de outras desgraças e ri-se descontroladamente como quem ri para não chorar. É o espelho de um povo que luta para sobreviver e manter as suas tradições, a sua identidade, mas a perda de tais raízes pode significar uma luta entre a sanidade e a loucura. A falta de liberdade que a população de Timbuktu sofre é exposta através da hipocrisia de um elemento que proíbe que se fume mas que ele próprio fuma em segredo. Mas o argumento eleva os oprimidos quando representa conceitos em vias de extinção como a liberdade, a imaginação e a criatividade do ser humano, usado como último recurso de quem vibra com o futebol e é capaz de o jogar mesmo uma bola. timbuktu sing A cultura de um povo é um direito do ser humano, e mesmo que ele seja privado dela, sempre haverá coragem para desobedecer, será sempre possível cantar mesmo que a ser açoitada, sempre será possível dançar ainda que a música esteja dentro da nossa cabeça, sempre sobrará uma réstia de força para tentar escapar. A quase ausência de banda sonora faz sentido num filme que muito se aproxima do documental mas que, por outro lado, realça a riqueza das músicas entoadas por quem desobedece à proibição. As breves notas tocadas abrem as portas a uma cultura vibrante, a sons envolventes, a melodias encantadoras.  A fotografia cuidada aliada a um guarda roupa exuberante (de cores e tecidos vibrantes) compõem imagens sublimes que transportam o espectador até estas personagens e atingem o âmago do que é viver e ser privado de direitos humanos básicos. Tal como ouvimos no início do filme na perseguição à gazela, um jihadista diz: “não a mates, cansa-a só”. Assim o fazem com estas pessoas, martirizando-as até que aceitem sem objecção o seu estado islâmico, as suas regras absurdas, procurando legitimar o ilegitimável.

Classificação (0-10): 9

Timbuktu | 2014 | 97 mins | Realização e argumento: Abderrahmane Sissako | Elenco principal: Ibrahim Ahmed, Abel Jafri, Toulou Kiki  https://www.youtube.com/watch?v=Cs2dYAlbINY

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