Filosofia e moral de um «Homem Irracional»

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A filosofia sempre esteve de alguma forma presente na obra de Woody Allen, no entanto em Homem Irracional assume uma preponderância sem precedentes. Percebe-se isso ao ouvir “Kant” como a primeira palavra dita no filme, pronunciada por um professor de filosofia a caminho de leccionar na universidade de verão de Brighton, em Rhode Island (embora o local aqui seja desvalorizado em termos contextuais, ao contrário de que vinha acontecendo sobretudo nas cidades europeias das mais recentes produções). Trata-se de Abe, interpretado pelo sempre sólido Joaquin Phoenix, alguém que se está nas tintas para a sua actividade pedagógica numa fase em que perdeu a chama da vidafigura que o actor incorporou em pleno: um visual com algum charme e uma certa reputação no campo sexual, aliadas a uma faceta de desencanto e decadência, com a barriga, o álcool e até a impotência entre os lençóis a conquistarem cada vez mais espaço.

É a partir da busca de significância moral desta personagem que esta curta porém mordaz narrativa se move, mas não sem uma figura feminina que, como é recorrente no trabalho do cineasta norte-americano, confronta o homem com os seus próprios limites físicos, intelectuais ou existenciais. Emma Stone é quem segue no presente linhagem de “musas” de Allen, entre as quais se contam Diane Keaton, Mia Farrow, Scarlett Johansson e mais recentemente Cate Blanchett. Em Homem Irracional, Stone interpreta Jill, uma aplicada estudante universitária atraída pelas questões morais não menos do que pelo seu professor, julgando-se capaz de ser a sua tábua de salvação.

Com Ingmar Bergman no horizonte de referências cinematográficas, este é sobretudo um conto moral capaz de suscitar profundo debate e complexos dilemas que se enquadra numa corrente de trabalhos anteriores de Allen com tema e ambiente semelhantes, como é o caso de Crimes e Escapadelas, Match Point e O Sonho de Cassandra. Através da personagem interpretada por Phoenix, colocam-se à prova os limites da moralidade, do crime e do castigo (não é por casualidade a aparição do livro de Dostoiévski na secretária de Abe, como não o é a sua identificação com o pensamento de Kant), a face egoísta do altruísmo de quem pondera transgredir a lei e a ética para fazer o bem e, como objectivo último, sentir-se auto-realizado. É como se moralmente Abe enveredasse por um labirinto de espelhos (como o faz de facto com Jill), no qual perante agudas distorções da realidade apenas é capaz de ver o que há de mais belo na imagem.

Certamente longe de reinventar o género ou seu próprio brilhantismo, o catedrático Woody Allen refuta na sua mais recente lição a ideia de que o seu cinema se resume a variações mais ou menos agridoces de comédias românticas. Sem perder as suas marcas de estilo, salientando-se neste caso a abundância da narração em off ou a banda sonora em tons de jazz (óptimo trabalho do Ramsey Lewis Trio), abdica quase na totalidade dos gags humorísticos, preferindo acentuar questões profundamente humanas e existenciais à medida de que conta uma história como só ele sabe.

Classificação (0-10): 7

Homem Irracional | 2015 | 95 mins | Realização e Argumento: Woody Allen | Elenco principal: Joaquin Phoenix, Emma Stone e Parker Posey

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