DocLisboa 2015 Report #2: a continuação

Com o início da semana, prosseguiu o desfile da densa e atractiva programação do DocLisboa’15, incontornavelmente marcada pelo falecimento recente (5 de Outubro) de Chantal Akerman, facto que trouxe uma carga suplementar ao já de si esperado visionamento do mais recente e derradeiro da realizadora belga. No Home Movie é a antítese do que o título sugere: em vez de desafiar ou transgredir a tradição home-movie, adopta precisamente este formato para prestar tributo à mãe de Chantal, Natalia, sobrevivente de Auschwitz que morreu em 2014. Deixando de parte a vanguarda, Akerman pretende reforçar o seu caracter nómada ao deixar entender que com a partida da figura materna Bruxelas já não é a sua casa.

Ao cair da noite chegou a sessão com um relato de vida bastante negro. Falamos de My Talk With Florence, que se baseia no perturbador e corajoso testemunho de Florence Burnier-Bauer, nascida em Paris em 1949 numa família de classe média com raízes soviéticas, violada desde cedo pelo avó, silenciada por via de tratamentos de choque num asilo. Bastante mais tarde, fugindo daquele drama, julgou encontrar um porto de abrigo no seio de uma comunidade contra-cultural austríaca, liderada por Otto Mühl, mas mal sabia que o seu pior pesadelo ainda estaria por chegar. 

O sexto dia do festival marcou o início das sessões da secção Cinema de Urgência, de entrada livre mediante a entrega de bens para doação. A primeira delas foi Am I Next?, que partiu da problemática da violência policial na dimensão da discriminação racial. A sala Montepio do Cinema São Jorge encheu-se para assistir a um conjunto de 7 curtas-metragens que atravessam o tema internacionalmente, desde Ferguson à Cova da Moura. No final, foi lançado o debate moderado por Miguel Ribeiro e com o contributo de Flávio Almada da Plataforma Gueto e Jorge Gonçalves do Instituto Superior Técnico, estendendo-se também ao público presente. Apesar do envolvimento e participação intensos, revelou-se difícil manter o foco na questão central – o abuso da utilização de meios de violência por partes das forças policiais – por motivos distintos: por um lado, Flávio Almada procurou sempre enquadrar a questão numa problemática mais geral e nas actividades da própria plataforma que ali veio representar, com a proximidade de quem sofre na pela com este e outros problemas ligados ao racismo; por outro lado, Jorge Gonçalves mostrou sempre um discurso polido e direccionado para iniciativas ligadas ao planeamento urbano e à organização social do espaço, incapaz de valorizar o significado das imagens que haviam sido mostradas.

Am-I-Next

O público contribuiu ora para acender os ânimos com perspectivas e casos mais ou menos particulares, ora para também englobar a violência policial num conjunto de mudanças necessárias mais alargado. Em todo o caso, à saída todos terão levado consigo pelo menos uma consciência mais viva de que apesar dos inúmeros problemas sociais por solucionar, é urgente que nesse processo pessoas deixem de ser espancadas, encarceradas ou até mortas com base no preconceito e na utilização desproporcionada de poder.

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