«La La Land: Melodia de Amor» no mundo dos sonhos

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Durante cerca de duas horas esqueçam-se as angústias e os males que assolam o mundo. Abram-se as portas à inocência, à magia, à emoção e estenda-se a passadeira vermelha aos apaixonados pelo cinema. Mesmo os que habitualmente não apreciam musicais, a priori pouco entusiasmados, serão provavelmente arrebatados por La La Land, terceira longa-metragem na carreira de Damien Chazelle, que aos 32 anos dá ares de ter criado a sua obra-prima.

O título não poderia ser mais certeiro: esta é, sem dúvida, uma realidade muito própria, fantasiosa, que além do mais acontece precisamente em L.A. – Los Angeles –, a morada habitual do sonho americano no campo das artes. Neste sentido não é tanto uma narrativa universal (em certa medida até será autobiográfica, já que Chazelle se mudou para Hollywood almejando concretizar a única vocação que encontrou em si: fazer cinema), ancorada que está a um lugar cuja atmosfera e dinâmica transformam a ‘escada social’ num autêntico trampolim, onde pequenos pontos de viragem podem desfazer a ténue distância entre o anonimato e a fama.

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É precisamente neste limbo que vivem os dois protagonistas, Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling), dois artistas em busca de singrar num meio difícil, por vezes hostil, mas cuja determinação não os deixa desistir. Ela é aspirante a actriz, ao passo que ele é pianista de jazz e sonha abrir o seu próprio clube, e a casualidade dos acontecimentos leva-os a cruzarem-se por diversas ocasiões e a apaixonarem-se. Stone e Gosling não são perfeitos no seu desempenho, é fácil reconhecê-lo, mas corporizam uma imagem simultaneamente clássica e moderna, glamorosa e credível, com a química necessária entre si para se querer conhecer o seu destino. Não menos importante, são equilibradamente competentes na denominada triple threat, isto é, a capacidade combinada de representar, cantar e dançar.

“Porque é que dizes ‘romântico’ como se fosse algo mau?”.

Vale a pena ir directo ao ponto: este é uma obra de coração aberto, liberta de cinismo e plena de romantismo. Uma carta de amor a Los Angeles, a Hollywood, ao cinema, às artes de uma era pré-digital. Nela reimagina-se o estilo de musicais clássicos, sobretudo dos anos 40 e 50, com influências entre as quais se encontram Michael PowellEmeric Pressburger ou Jacques Demy. Filma-se em película de 35mm, no formato CinemaScope, recorrendo essencialmente a elementos expressionistas tradicionais para compor a essência do filme. Como quase tudo em La La Land, as cores são vibrantes, embora se vão esbatendo um pouco com o avançar da história (aspecto particularmente visível no guarda-roupa de Mia). A maioria das cenas são rodadas em exteriores, com uma cuidadosa decoração dos locais que reforça a coerência deste mundo especial (os candeeiros na cena de sapateado são iguais aos que se vêm no pontão à beira-mar, por exemplo).

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Abundam os longos planos-sequência, como a desconcertante cena de abertura ou os diversos momentos de Sebastian ao piano, que desafiaram Gosling a aprender realmente a tocar. A música, claro, tem uma importância especial e a composição de Justin Hurwitz corresponde de modo sublime. Em torno de um conjunto de notas recorrentes, de melodias que ecoam muito para além do final do filme e de, pelo menos, um par de canções memoráveis (“City of Stars” e “Audition (The Fools Who Dream)”) irrompe uma trilha sonora orquestrada com uma formação de quase 100 elementos, que gravou nos mesmos estúdios onde a música para Serenata à Chuva foi registada.

“Como vais ser um revolucionário se és tão tradicionalista? Agarras-te ao passado, mas o jazz é sobre o futuro.”

Chazelle tem-se inclinado para um cinema afecto à música e particularmente ao jazz (Whiplash desenrola-se numa escola de jazz e Guy and Madeline on a Park Bench retrata o trajecto de um trompetista) e não será coincidência que o estilo nascido em Nova Orleães volte a assumir preponderância. Tudo encaixa lindamente, pois o génio da realização de La La Land reside na sua condução ao ritmo do que afirma ser o ethos do jazz: herdar do passado ousando reinventá-lo com os olhos postos no que há-de vir. A diversidade de técnicas e abordagens experimentadas, a par do virtuosismo e imprevisibilidade da sua execução, são prova disso. Os movimentos de câmara em si mesmos melódicos, com planos em que se sente a câmara a dançar em sintonia com os actores, não podiam ser melhor demonstração. E, ao contrário do cinema clássico de Hollywood, aqui nada é idilicamente perfeito. Nos diferentes “números” musicais há sempre um elemento de desconstrução que deixa claro tratar-se de uma ilusão, revelando o artifício. Não se procura representar o real, pretende-se fazer o elogio aos sonhadores, homenagear o seu legado iluminando o caminho com novas ideias.

De estética intemporal e sensibilidade contemporânea, La La Land deixa uma marca na história do cinema como deslumbrante fábula musicada sobre a persecução de um lugar ao sol na cidade dos anjos.

Classificação (0-10): 9

La La Land: Melodia de Amor | 2016 | 128 mins | Realização e argumento: Damien Chazelle | Elenco principal: Ryan Gosling, Emma Stone e Rosemarie DeWitt

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