«Moonlight»: só o brilho do luar ilumina as nossas verdadeiras sombras

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Arrebatador, premente e inteligente, assim é Moonlight, a segunda longa metragem do realizador Barry Jenkins (Medicine for Melancholy, 2008). Moonlight é um filme sobre identidade e como ela vai sendo formada à medida que se vai crescendo. Quem sou eu? Quem sou eu em relação às pessoas que me rodeiam? Que influência tem o contexto social, que poder temos nós, enquanto indivíduos, para nos definirmos. O argumento está dividido em três partes (tal como a imagem do poster mostra uma montagem de 3 caras) e cada uma segue linearmente o crescimento da personagem principal, Chiron. As três partes são nomeadas de acordo com os seus diferentes apelidos, definindo quem exerce maior influência na identidade de Chiron em cada etapa da sua vida. A primeira parte, Little, refere-se à sua infância, onde Chiron (Alex Hibbert) é uma criança engolida pelo seu contexto social no qual não se enquadra, submersa pela insegurança de um bairro problemático na qual tenta permanecer à tona… A segunda parte, Chiron, refere-se à sua juventude (interpretada por Ashton Sanders), uma época dedicada à exploração da sua identidade e ainda que constrangido pela dureza do quotidiano, é ele quem tem o papel principal na sua vida. Como mandam as regras da escrita de um argumento, a segunda parte apresenta o conflito, que consiste no ponto de viragem da história, que ditará o futuro. A última parte retrata um Chiron adulto (Trevante Rhodes), condicionado por todo o seu passado – Black (apelido dado pelo seu primeiro amor que dita as regras deste desfecho).

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O argumento aborda um assunto premente: a homossexualidade na comunidade afro-americana, um eco-sistema onde os homens tendem a ser fortes, porcos e maus. Esta temática é um pano de fundo sempre presente, mas timidamente explorado, como que um segredo que Chiron nem ousa explorar, tornando-se um ser humano blindado ao amor, por culpa de uma sociedade impiedosa.

O realizador traz uma lufada de ar fresco a outra temática não tão inexplorada, mas que nas mãos certas encerra uma profunda revolução. Crianças a crescer em bairros sociais não é novo no cinema. Mas um plano americano de duas personagens aparentemente antagónicas sentadas à mesa (o dealer Juan, que contribui para a alienação do bairro e para a degradação da mãe de Chiron, que o abandona displicentemente; e Chiron, uma das suas vítimas colaterais) onde a troca de duas perguntas e duas respostas, sintetizam toda a problemática relacionada com o tráfico de droga, visível na tensão e impotência de duas faces da mesma lua, tão opostas e intrincadas quanto a realidade pode ser – isto sim, é a força de imagens em movimento, encerrando em si o peso da realidade atroz, traduzido em segundos de fotogramas e diálogo. A inteligência do filme nunca sucumbe a vãos clichés, o dealer (Mahershala Ali), que através da ruína alheia alcançou conforto material, é o único modelo de parentalidade que Chiron conhece e o seu único porto seguro.

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O olhar refrescante de Barry Jenkins sobre a vida de pessoas pertencentes a grupos minoritários tem destacado os seus trabalhos em vários festivais internacionais (com Moonlight já arrecadou um Globo de Ouro e oito nomeações aos Oscars). Para além da dimensão humana retratada de forma arrebatadora, os aspectos técnicos são também de realçar. A direção de fotografia é muito rica, tirando-nos do conforto passivo enquanto espectadores, com os planos em que a câmara filma em movimentos circulares anunciando momentos de tensão, como no caso da conversa entre o dealer e o vendedor da rua, ou quando um bully do liceu sai em busca de Chiron.

A luz assume igualmente um papel simbólico em alguns momentos: quando ilumina Chiron de azul, seja na praia ou no seu apartamento em Atlanta, remetendo-nos para a história que Juan partilha com ele sobre memórias da sua infância em Cuba, demarcando esta afinidade entre ambos. Ou a imagem da sua mãe (Naomie Harris) , iluminada a néon rosa a gritar em descontrolo, contrastando assim um polo masculino ligado a afectos e um feminino ligado a um sentimento de negligência.

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A banda sonora pontua o filme de maneira subtil sem manipulador o espectador. Um momento simbólico em que a música é utilizada de forma mais demarcada acontece na viagem de carro até à sua terra natal, onde ouvimos Caetano Veloso, que nos remete para uma América latina (quiçá Cuba), e vemos uma justaposição entre a imagem do mar e o carro em direção ao passado de Chiron. Elementos como a música, a direção de arte e o guarda roupa, evidenciam a transformação que ocorreu em Chiron e a identificação com o seu modelo parental, sem dúvida uma das influências mais fortes na construção da sua identidade. Mas será esta nova versão de si compatível com as outras?

Todo o elenco constituí à trama uma grande veracidade, destacando a interpretação de Mahershala Ali, num Juan calmo, atento às pessoas do seu bairro, quase em jeito de tentar remediar o mal que caba por causar. Bem como Naomie Harris, que desempenha o papel de Paula, mãe de Chiron, uma mulher desequilibrada, que tenta escapar à sua própria vida através da droga.

A certa altura, tens de decidir por ti mesmo quem queres ser. Não podes deixar que ninguém tome essa decisão por ti.

Moonlight inunda-nos numa brisa marítima que relativiza os enormes desafios de crescer e nos definirmos enquanto pessoas. Podemos cair, mas seremos suficientemente fortes para nos reerguemos. Hoje tudo pode estar mal, mas haverá um novo dia e amanhã podemos começar de novo.

Classificação (0-10): 9

Moonlight | 2016 | 111 mins | Realização: Barry Jenkins | Argumento:  Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney | Elenco principal: Mahershala Ali, Naomie Harris, Alex R. Hibbert, Ashton Sanders, Trevante Rhodes, Shariff Earp, Duan Sanderson, Janelle Monáe

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