«A Fábrica de Nada»: cinema em autogestão

A Fábrica de Nada é a primeira incursão de Pedro Pinho na ficção que, apesar de extremamente actual, parte de uma peça de teatro de Judith Herzberg encenada pela primeira vez em 1997, nascendo depois de uma ideia de Jorge Silva Melo e desembocando num argumento escrito a oito mãos (Tiago Hespanha, Luisa Homem, Leonor NoivoPedro Pinho). Soma às abordagens de Marco Martins (São Jorge) e de Miguel Gomes (trilogia As Mil e Uma Noites) mais uma notável obra portuguesa que se expressa acerca de um tempo marcado pela crise económica, pelas políticas de austeridade/empobrecimento e, mais genericamente, pelo modo de funcionamento do paradigma capitalista.

Contrariamente ao que o título sugere, A Fábrica de Nada é um filme cinematograficamente bastante produtivo e em modelo de auto-gestão. Desde logo no plano narrativo, já que é esse o mote da acção: um grupo de trabalhadores de uma empresa de elevadores, antevendo o deslocamento da produção e sentido os seus postos de trabalho em risco, propõe-se a ocupar a fábrica e geri-la pelas próprias mãos, recusando o despedimento e a sugestão da administração de “ver a crise como uma oportunidade”. O caso é inspirado no que aconteceu na realidade à empresa Otis, que a partir de 1975 e até 2016 deu lugar à Fateleva, esta gerida pela própria equipa. O elenco do filme compõe-se maioritariamente por não-actores, operários da zona da Póvoa de Santa Iria, que através de uma forte componente de improviso apresentam reacções frescas e genuínas que emanam das suas trajectórias individuais.

Em termos formais, esta fábrica é palco de um cinema livre e arrojado, expresso sobretudo no cruzamento da ficção com o documentário, na inclusão de momentos musicais neo-realistas e até de cenas que mais parecem saídas de um making of, quebrando diversos cânones da sétima arte. O próprio modo de produção do filme é bastante autónomo, tanto na escrita colectiva do argumento como na constituição da produtora independente que o levou a cabo, composta por quatro realizadores e um produtor. 

A necessidade de incorporar uma intervenção mais pessoal sobre o tema em discussão é igualmente um aspecto relevante, concretizado através de leituras em voz-off, de momentos de debate (completamente fora do fio narrativo que une a história) e principalmente da personagem Daniele (Daniele Incalcaterra), figura subtilmente introduzida na situação da fábrica que funciona como consciência ideóloga e omnipresente do colectivo. A ousadia na inclusão explícita de perspectivas políticas e ideológicas que raramente têm “tempo de antena” funciona ao mesmo tempo como um dos pontos mais frágeis do filme, pois além de contribuir para se alcançar as quase três horas de duração, que se tornam algo pesadas em certos momentos, poderia ter sido deixado mais à imaginação e reflexão do espectador.  

A Fábrica de Nada é liberdade traduzida em cinema, profundamente necessário para sacudir o marasmo e questionar a centralidade do trabalho na vida em sociedade e a forma como este penetra todas as esferas da existência.

Classificação (0-10): 8
A Fábrica de Nada | 2017 | 177 mins | Realização: Pedro Pinho | Argumento: Tiago Hespanha, Luisa Homem, Leonor Noivo e Pedro Pinho, a partir de uma ideia de Jorge Silva Melo
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