Queer Lisboa 18: «Xenia»

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Fazendo correspondência com o nome de um dos protagonistas – Odysseas (Nikos Gelia) – Xenia, de Panos H. Koutras, é uma autêntica odisseia helénica na qual importa mais o trajecto do que o objectivo final. Aqui, a missão dos irmãos Ody e Danny é encontrar o pai que os abandonara na infância, confrontá-lo com as suas responsabilidades e assim conquistar o passaporte para uma nova vida: dinheiro e a nacionalidade grega. Mistura fina de comédia descontrolada e drama profundo, de ternura e desencanto, trata-se também de uma obra deveras provocante ao convocar para o grande ecrã a questão da diversidade da orientação sexual e dos direitos dos imigrantes numa realidade social em que a crise económica tem feito crescer não só a pobreza como as manifestações de xenofobia, racismo e homofobia (tal como vem tristemente acontecendo um pouco por toda a Europa). Neste caso, os dois rapazes semi-albanses são formal e informalmente tratados como estrangeiros na Grécia, mesmo sendo esse o seu país de nascença. A construção das personagens, em particular dos dois protagonistas, recheada de detalhes que as tornam profundas e singulares, assim os laços fraternos e a protecção mútua, representa grande parte da substância do filme: Danny (Kostas Nikouli), um frenético queer punk adolescente com uma infância mal resolvida e frequentemente alvo de confrontos homofóbicos, e Ody, à primeira vista um durão porém rendido aos acordes de um qualquer clássico da diva italiana Patty Pravo, são interpretações tocantes e envoltas numa química bastante especial. Todavia, é a justaposição do realismo com a fantasia surrealista que eleva o filme a outro patamar, através de um argumento magnificamente emaranhado onde cabem concursos de talentos, animais falantes e a representação de sonhos. Juntando-lhe uma banda sonora com uma presença crucial, um ritmo elevado e uma vibrante paleta de cores (possivelmente inspirados pelo estilo de Danny Boyle em Quem Quer Ser Bilionário?) Koutras mostra-se consistentemente capaz de cativar o interesse do espectador.
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Há pouco de negativo a apontar, exceptuando o facto de deambular por registos tão distintos, o que torna o filme algo episódico e extende descessariamente a sua duração. Para além disso, teria de apresentar um estilo distintivo ou uma marca de autor mais vincada em termos técnicos para tornar Xenia uma obra icónica da cinematografia grega contemporânea. Assim, pode “apenas” ser considerado um muito bom filme.

 Classificação (0-10): 8

 

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