«Nebraska», uma viagem obstinada

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Cativante, teimoso e divertido assim é Nebraska, realizado por Alexander Payne, que tão habilmente tem abordado dinâmicas familiares através de uma lente nada conservadora ou tradicionalista, como em Os Descendentes.

A cena inicial do filme mostra um homem de cabelos grisalhos e desgrenhados à beira de uma estrada. Ao ser interrogado pela polícia sobre o seu percurso, ele afirma: vou para ali (apontando para a frente) e vim dali (apontando para trás).

Este momento inicial resume  em si o próprio filme, que sem artifícios de montagem e numa narrativa linear (cuja simplicidade da história e dos cenários lembra Uma Historia Simples, de David Lynch), conta uma história de persistência num objectivo que é uma ilusão consentida. Esta cena descreve também o personagem principal, Woody Grant (representação brilhante de Bruce Dern), que ao receber uma carta que faz dele vencedor de um milhão de dólares, assume como missão de vida chegar ao Nebraska para reclamar o prémio. O polícia leva Woody até à cadeia onde o seu filho David (Will Forte) o encontra com a referida carta e lhe diz que tal não passa de um embuste publicitário. Apesar do desencantamento, Woody não desiste e independentemente da ajuda com que conta mostra-se determinado a ir, nem que seja a pé, de sua casa em Montana até ao Nebraska. Woody quer ser como um daqueles afamados carros de 1979 que nunca deixam de andar.

Por um lado David vê a obsessão do pai como uma boa desculpa para sair da rotina e passar tempo com ele, mas o lado mais pragmático da família constituído pela mãe Kate (June Squibb) e pelo irmão mais velho Ross (Bob Odenkirk), opõe-se. Estes dois núcleos de personagens contrastam uma postura mais espontânea e algo louca, de Woody e David (que acaba uma relação há pouco e tem um trabalho precário), com uma postura mais conservadora, da mãe e de Ross (com uma família estabelecida e uma carreira em ascensão).

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A obstinação de Woddy conquista David e estes embarcam numa jornada que pretende alcançar um futuro milionário, mas que apenas os leva de volta ao passado. Os close-ups do rosto de Woody durante a viagem denunciam uma curiosidade de quem ganhou não um milhão de dólares mas um bilhete para a sua última aventura, ideia reforçada pelos travellings ao longo do filme. Durante a viagem vemos o desabrochar das personagens, a desorientação mental de Woody que dá origem a momentos de comédia física (como o momento da dentadura), assim como o seu humor característico de velhote rezingão que se torna irresistível, a mãe que tem a mania que foi o último bom partido à face da terra e o resto da família, que assim que toma conhecimento da fortuna começa a lembrar-se de velhas dívidas.

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O preto e branco da imagem distancia-nos do tempo em que o filme ocorre, imortalizando-o num retrato cheio de humor sobre a última etapa da vida, os seus desafios e encantos. Uma história que estabelece uma relação directa com o espectador que facilmente se identifica com as personagens deste Nebraska.

Classificação (0-10): 9

Nebraska | 2013 | 115 mins | Realização e argumento: Alexander Payne| Elenco principal: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb, Bob Odenkirk

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