«As Asas do Vento»: o derradeiro poema de Miyazaki

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As Asas do Vento começa com uma citação de Paul Valéry que em grande medida inspira o filme, sobre fundo azul céu: “O Vento Ergue-se…Há que tentar viver”.  Daqui se pode retirar desde logo que Hayao Miyazaki se prepara para nos conduzir em direcção a momentos de instabilidade em que a vida, grosso modo, estará em risco, mas também que agora há que viver sabendo que depois desta não existirão mais obras do realizador japonês, que aos 73 anos anunciou o fim da sua produção cinematográfica.

Ainda que a narrativa seja claramente ficcional, este será porventura o trabalho mais ancorado ao real que Miyazaki já realizou. Por um lado, é um assumido tributo tanto ao engenheiro aeronáutico Jiro Horikoshi, o protagonista da história que se juntou à Mitsubishi em 1927 e viria a conceber os aviões de combate A6M1 (mais conhecidos como Zero na Segunda Guerra Mundial), como ao escritor Tatsuo Hori, cuja presença acontece de forma mais simbólica: o título deve muito à sua obra Kaze Tachinu (The Wind has Risen), que decorre num sanatório para doentes com tuberculose. Por outro lado, sendo um dos filmes que mais se afasta do seu registo habital é também o mais pessoal e auto-biográfico, desde logo pelo contexto familiar próximo do mundo da aviação (o pai de Miyazaki foi director da Miyazaki Airplane, que produziu partes dos aviões Zero) e pelo facto da sua mãe ter igualmente padecido de tuberculose.

Não estamos na presença de um filme particularmente positivo. Historicamente retratam-se alguns dos capítulos mais negros da história do Japão, incluindo a grande depressão económica, o terramoto de 1923 que devastou Tóquio e Yokohama e a epidemia de tuberculose, mas em particular a névoa da Segunda Guerra Mundial que pairou sobre aquele país, ainda que as cenas bélicas sejam praticamente inexistentes. O rigor (também histórico) do desenho de Miyazaki é, aliás, um dos aspectos mais impressionantes, cobrindo várias décadas, alternando entre o Japão e a Europa, reproduzindo detalhadamente uma panóplia de meios de transporte, como o comboio, o barco, o eléctrico e, com maior destaque, o avião, e uma não menor diversidade de fenómenos naturais: chuva, neve, terramoto e, incontornavelmente, vento, esse que é sempre condição sine qua non dos encontros fortuitos que permitem que o amor cresça entre Jiro e Nahoko.

No lugar de uma forte dimensão sobrenatural, característica central no cineasta nipónico, em As Asas do Vento esse espaço é concedido à dimensão do onírico. Jiro deambula em sonhos, nos quais tem tristes premonições mas onde também encontra profunda inspiração, nomeadamente naqueles em que se encontra com o italiano Gianni Caproni (outra personagem inspirada na figura real), engenheiro de aeroplanos.

Tímido e reservado, Jiro está longe de ser o mais cativante dos heróis, opção que se justifica pelo paradoxo da sua actividade. É que o brilhantismo de Jiro viria a ser o pesadelo de muitos na recta final da Segunda Guerra Mundial, autênticos “sonhos amaldiçoados” quando as suas magníficas aeronaves se converteram em máquinas de guerra, contradição que é também a de Miyazaki: adora aviões de combate mas odeia a guerra. Aliás, o seu lado humanista está patente em toda a filmografia, onde se encontram frequentemente temas ambientalistas, feministas ou, como neste caso, pacifistas.

Conciliando o mundo da aviação e da guerra com o amor e a inspiradora cultura japonesa, neste seu último voo Miyazaki prova que o seu talento fantasista para contar histórias e as concretizar com primor estético invejável tem asas, transcendendo uma vez mais os limites do género com um argumento que faz com que a animação, pese a imensa mais-valia artística, seja apenas uma técnica possível ao serviço da arte maior de fazer cinema. Assim, afirma-se como o realizador que maior impacto deixou na animação das últimas décadas e que apesar da secundarização de que sofre o género deve ser considerado como um dos maiores cineastas vivos.

Classificação (0-10): 8

As Asas do Vento | 2013 | 126 mins | Realização e argumento: Hayao Miyazaki | Vozes: Hideaki Anno, Hidetoshi Nishijima e Miori Takimoto

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