ENTREVISTA: Marco Tullio Giordana, no 8 ½ Festa do Cinema Italiano

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Estivemos no primeiro dia do 8 ½ Festa do Cinema Italiano à conversa com o realizador do filme de abertura. Marco Tullio Giordana nasceu em 1950, em Milão, cidade que em 1969 foi palco do trágico acontecimento que inspirou a sua mais recente obra, Romanzo Di Una Strage. O ponto alto da sua carreira pode ser considerado o prémio Un Certain Regard conquistado no festival de Cannes com A Melhor Juventude. O realizador e argumentista italiano falou-nos das motivações e nuances da construção do seu último filme, partilhou a sua visão acerca da situação social e política actual e até confessou a sua admiração por filmes “série B”.

Cinemaville: Já afirmou de ter vivido de perto o massacre que aborda no seu último filme. Como foi ser um jovem num período politicamente tão conturbado e que importância teve essa vivência na construção de Romanzo Di Una Strage?

Marco Tullio Giordana: Na altura nós tínhamos uma visão global daquilo que foram os acontecimentos, de que de facto tinha acontecido um evento terrível. Ao longo dos anos houve uma pesquisa por parte de jornalistas, saíram alguns artigos e outro tipo de documentos, mas ainda não se tinha feito um filme sobre este massacre e eu pensei, como passei pelo local dois minutos depois de ter acontecido, que tinha conhecimento suficiente e poderia descrever estes factos. A experiência de ter vivido na primeira pessoa aquela altura ajudou-me muito na direcção específica dos actores. Não tanto os actores da minha geração, que ainda se lembravam bem, mas dos jovens, que nasceram depois do acontecimento e que não pensam que algumas das reacções ou comportamentos que existiram fossem sequer possíveis.

CV: Porque acha que até agora ninguém tinha feito um filme sobre este assunto?

MTG: É uma história de facto muito complicada, com muitas nuances difíceis de sintetizar. A figura do comissário Calabresi é  também uma figura embaraçosa, muito controversa porque naquela altura todos estavam certos que ele tinha atirado da janela o activista/anarquista Pinelli. Ninguém teve a coragem de inverter este ponto de vista, que é um factor muito importante na maneira como fizemos no nosso filme. A dificuldade do tema está reflectida nesse mudar de perspectiva, bem como na dificuldade de desenvolver a figura de Calabresi.

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a injustiça e a pobreza não permitem manter a estabilidade e a paz social

CV: A criação e execução deste filme foi algo que lhe deu prazer todo o tempo ou houve momentos em que se tornou doloroso? Qual a maior dificuldade que sentiu?

MTG: Foi muito bom realizar o filme, tive colaboradores espectaculares, mas a cena da explosão da bomba, na Praça Fontana foi psicologicamente difícil, porque eu não quis um trabalho de pós-produção muito elaborado, procurei que tudo fosse recriado na Praça Fontana. Essa foi mesmo a primeira cena que realizei, para acabar logo com essa dor.

CV: Sendo centrado num momento particular da história de Itália, como espera que o público português receba este filme sem a memória colectiva dos acontecimentos? Considera esta história universal e capaz de conquistar o espectador não-italiano?

MTG: Tenho que admitir que o público italiano também não sabe absolutamente nada sobre este acontecimento, portanto é completamente virgem no que diz respeito ao assunto. Talvez o ponto mais forte do filme seja a relação entre o comissário Calabresi e o activista/anarquista Pinelli. O filme pode também ser visto como se fosse completamente ficção, excluindo os acontecimentos históricos, porque há uma temática forte, universal, que é a ligação entre estas duas personagens, uma relação de cuidado e respeito mesmo com todas as suas diferenças. Nos elementos da detenção e da investigação o filme poderia ser visto como se fosse um filme noir e so no fim descobrir-se que é tudo verdade.

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não há em lugar algum uma classe política tão corrupta como a italiana

CV: Parece-lhe que no cenário politico e económico actual, sobretudo nos países do Sul da Europa, a violência pode voltar às ruas e proporcionar incidentes como o que retrata no seu filme?

MTG: Com certeza que corremos este risco porque a injustiça e a pobreza não permitem manter a estabilidade e a paz social. O que me parece que está a acontecer a muitas famílias em Itália pode ser comparado com o que se está a passar no norte de África, onde o povo se tem revoltado por viver numa oligarquia que continua a governar à “quinhentos anos”. Noutros países da Europa há problemas relacionados com a política monetária e económica, mas não há em lugar algum uma classe política tão corrupta como a italiana, daí a ligação com os países do norte de África.

CV: Este festival dedica uma secção ao cinema de género italiano dos anos 70. Como cinéfilo, qual é a sua visão dos poliziottesco e western spaghetti italianos popularizados na década de 70?

MTG: Eu vi imensos filmes, gosto muito, sou um apreciador desse cinema, do poliziottesco, do B-movie dos anos setenta. Não lhe chamo poliziottesco porque acho pejorativo, é um cinema de género feito com poucos meios mas muito corajoso à sua maneira. Revi todos esses filmes antes da realização de Romanzo Di Una Strage, assim como os meus colaboradores, serviu de pesquisa sobre o tipo dos automóveis ou o tipo de vestuário, por exemplo. São, de facto, um documento antropológico importante.

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